quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Para onde foi a água do mar?

Por Gustavo Prouvot Ortiz




(adaptação da foto de Léo Saballa Jr/RBS TV)

   Recentemente foi muito comentado na imprensa e redes sociais o acentuado recuo do mar observado nos estados do Sul e Sudeste, nos dias 12 e 13 de agosto. Muitas dúvidas surgiram a respeito:

Qual será o motivo desse fenômeno? 
Será que é um tsunami? 
Já aconteceu outras vezes?


Para entender: o nível do mar é influenciado basicamente por:  

Nível Eustático + Maré Astronômica + Efeitos Meteorológicos      

  1. Nível Eustático: nível regional, associado a longos ciclos climáticos maiores que 1.000 anos     
  2. Maré Astronômica: forçada pela dinâmica gravitacional da Terra e outros corpos celestes (Sol, Lua...) - ciclos entre 12h e 24h (saiba mais aqui)     
  3. Efeitos Meteorológicos: também chamados de "maré meteorológica", são efeitos forçados por incidência de vento local ou instabilidades na atmosfera - duram até poucos dias  

Explicação 

   O recente caso chamou a atenção pelo baixíssimo nível do mar, que resultou no recuo da linha d'água de mais de 50m em alguns locais mais planos. 

   Dentre as três opções anteriores, podemos, é claro, descartar a (1) pela escala temporal. A opção (2) também pode ser descartada como principal forçante, pois nos dias 12 e 13 a Lua estava indo para a fase minguante, que está relacionada às marés de quadratura (baixa amplitude). 

   Sobra, então, a opção (3) Efeitos Meteorológicos. Mas como eles poderiam gerar tal fenômeno? Vejamos: 

   O escaterômetro é um sensor a bordo de satélites capaz de medir a velocidade e direção do vento na superfície do oceano. Na manhã do dia 12 o sensor a bordo do MetOp-A registrou fortes ventos vindos de NE ao largo dos estados do Sul e Sudeste. Este padrão de ventos já vinha sendo observado há alguns dias na região.








Esta configuração de vento paralelo à costa gera o processo oceanográfico chamado de transporte de Ekman:
  Através de um complexo equilíbrio de forças, há um deslocamento da superfície do mar à esquerda da direção do vento

Foi este então o fenômeno observado. Matamos a charada!




Respostas ao restante das perguntas iniciais:  

Será que é um tsunami? 
Não é um tsunami! Vimos que foi um efeito meteorológico o causador deste baixo nível do mar anômalo.   
Já aconteceu outras vezes?  
Felizmente há uma série histórica de dados globais de escaterômetros desde 1999, o que permite realizar análise dos períodos em que o campo de vento apresentou características semelhantes nesta região. Alguém habilita-se a colaborar em um estudo?  
Outra forma de encontrar períodos anômalos do nível do mar é analisando os dados de marégrafo. Os registros em Ubatuba-SP indicam sim que houve ao menos outros 04 período anômalos desde 2014:


É interessante notar que no dia 05-out-2014 o nível esteve até mais baixo que o do recente fenômeno. 

Estes registros indicam que é um fenômeno anômalo, mas ocorreu entre os meses de junho e outubro. Será que há alguma regularidade? Uma análise temporal mais longa pode elucidar isto.
Há algo em comum nos processos atmosféricos destes dois períodos?  
Sim! O campo de vento medido pelo escaterômetro registrou fortes ventos de NE e havia a mesma configuração sinóptica, como podemos ver nas cartas geradas pelo CPTEC:



Em ambos os períodos havia um dipolo (Alta e Baixa pressão) com características estacionárias atuando na região. Será que esta configuração somente ocorreu entre os meses de junho e outubro, no mesmo período da anomalia de maré baixa? 

Para saber mais: https://www.youtube.com/watch?v=lnaEmcLE0nA

Sobre Gustavo Prouvot Ortiz

Sou oceanógrafo com experiência em sensoriamento remoto, geologia marinha, Lei do Mar e geopolítica. Vejo o oceanógrafo (bem formado) como um "naturalista moderno", capaz de observar e descrever processos com abordagem multidisciplinar e desempenhar papel relevante em diversos setores da sociedade. Tenho paixão pela divulgação científica e, como pai, creio que somos responsáveis por desenvolver o senso crítico nos pequenos e fazê-los perceber seu papel em nosso complexo planeta.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

XII Semana Temática de Oceanografia - STO 2017


Vem aí uma semana cheia de palestras, minicursos e mesas redondas! Invista na sua formação!



Explorando o Atlântico Sul

A 12ª edição da STO traz como tema o nosso próprio quintal! Venha aprender mais sobre os oceanos, com foco especial no Atlântico Sul! Serão tardes repletas de palestras e mesas redondas, e minicursos nos períodos noturnos. Além disso, cada dia trará um subtema, abordando os principais assuntos da atualidade.

Para mais informações acesse o site: https://www.stoiousp.com.br/

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O mundo empresarial e acadêmico – como os dois estão relacionados na Oceanografia?

Por Davi Mignac

Ilustração: Joana Ho

Desde que comecei a graduação em Oceanografia, sempre tive um desejo imenso de desenvolver tecnologias e produtos voltados para atender demandas da sociedade. Entender a motivação do meu trabalho e a contribuição que ele poderia fornecer para setores específicos da sociedade foi a força motriz para me especializar em uma área chamada Oceanografia Operacional, focando particularmente na produção de previsões oceânicas na costa do Brasil e na sua importância para os setores de navegação e exploração offshore.

Quando era criança, brincava que eu era o homem do tempo, e apenas olhando para o céu, dizia se iria chover nos próximos dias. Na universidade, relembrando esses tempos, dava risada sobre tamanha ingenuidade, mas começava a me perguntar: como produzir previsões de tempo mais precisas? Por que a previsão oceânica não é tão difundida como a previsão de tempo, e qual a importância dela para setores de navegação e para a indústria? Naquele momento, a universidade era minha “casa” e comecei a criar o espírito empreendedor ali mesmo, ao propor desenvolver um código de computador que melhorava a qualidade das previsões oceânicas geradas para a Petrobras, a qual financia o projeto da Rede de Modelagem e Observação Oceanográfica (REMO). A REMO é um grupo de pesquisa existente na Marinha do Brasil e em algumas universidades, incluindo a Universidade Federal da Bahia (UFBA), na qual me graduei.

No meu mestrado na UFBA, continuei a aperfeiçoar esse código, fiz diversas viagens à trabalho para Marinha do Brasil e para fora do país, incluindo EUA, Europa e até mesmo para China. A REMO abriu minha cabeça para algo chamado inovação, que sim, está presente na universidade e é obrigação no mundo empreendedor. Comecei a circular em um ambiente empresarial, quando durante o mestrado, me tornei consultor da empresa Advanced Subsea, pois eles queriam desenvolver um sistema de visualização de previsões do estado da mar nas bacias petrolíferas brasileiras. Opa, naquele momento percebia que tinha empresas interessadas naquele universo da Oceanografia Operacional. Isso significa que então existia mercado para aquilo, e que pessoas estavam dispostas a pagar por um produto como esse. Então pensei “que maravilha, eu entendo disso, agora só falta abrir uma empresa”.

Terminei meu mestrado, comecei a trabalhar na REMO por um tempo, e surfando uma tarde com amigos do curso, inclusive com dois que já tinham uma empresa de oceanografia,a Preamar Gestão Costeira, começamos a maturar um sistema de risco das operações portuárias com base em previsões hiperlocais das condições de mar e tempo. Não deu outra, abrimos uma empresa, agora a Preamar Soluções em Modelagem. Ficamos todos empolgados com a ideia, e então entramos nesse universo da start-up,  um verdadeiro gatilho nas nossas vidas empreendedoras.

A start-up respira inovação no seu dia a dia, e para ter sucesso, é preciso acreditar, ser criativo, ter ideias e saber moldar seu produto ao mercado. É preciso validar sua ideia com os clientes, é preciso saber se relacionar com pessoas, é preciso saber negociar, é preciso saber precificar, é preciso se acostumar com a resposta “não”, é preciso saber montar uma equipe de profissionais e zelar por ela, é preciso ter estratégia e frieza, é preciso criar uma cultura sólida e transmitir isso ao seu redor, é preciso ser fanático, um verdadeiro “workaholic” - no meu caso mesclado com doses de surf e diversão, claro. Começar a respirar esse mundo foi e ainda é uma experiência sensacional, quanto aprendizado! “Nunca teria enxergado esse mundo se tivesse me fechado completamente na academia”, penso eu agora. Então penso novamente, “deixe de ser ingrato Davi, pois não foi a academia que ajudou a abrir sua cabeça para a inovação? Que fomentou sua busca por coisas novas? Por conhecimento?” Esses dois mundos tem suas peculiaridades, mas são unidos por algo que move o universo das tecnologias: a busca pelo novo, o ritmo de constante aprendizado e o desejo de estar na fronteira do conhecimento. Para inovar, é preciso conhecer primeiro.

E com essa mentalidade, aqui estou eu fazendo meu doutorado na Universidade de Reading na Inglaterra, longe fisicamente da minha terrinha, mas virtualmente conectado com a minha empresa, oras. Reuniões quase todos os dias, planejamento, desenvolvimento, programação, código. Numa start-up, o sócio faz tudo, o famoso “severino quebra-galho”, mas cada um tem suas prioridades, pois para a engrenagem girar, alguém tem que ficar responsável pela área de desenvolvimento, outro pela área administrativa e financeira, outro pela área de prospecção e relacionamento com clientes, e por aí vai.

Vim para o doutorado porque acho que posso aprender mais e com isso contribuir para a empresa da qual faço parte. Posso conhecer o mercado aqui fora também, posso estabelecer contato e parcerias com universidades/instituições de fora. Porque eu acredito que universidades e empresas podem caminhar juntas. E no momento que eu terminar o meu doutorado (mais 1 ano e meio pela frente), devo me afastar da academia no meu dia a dia, mas minha filosofia irá continuar, de que deve existir uma parceria saudável entre universidade e empresa, com ambos se beneficiando dessa simbiose, e girando em torno de um objetivo comum: inovar e revolucionar as maneiras de enxergar processos e conceitos atualmente existentes.

E rapaz, como você segura essa onda de doutorado e empresa? Porque como eu falei acima, eu sou fanático pelo que eu faço, e o sacrifício de hoje é a recompensa que virá no amanhã. Com calma, focado no dia a dia, mas pensando longe. E foi através da minha vivência na academia e na empresa que construí essa visão de trabalho, e do que quero para o meu futuro!

Sobre Davi Mignac:

20370492_1509804612413613_1275167544_n.jpgOceanógrafo, doutorando em Meteorologia pela Universidade de Reading e COO da Preamar Soluções em Modelagem. Fanático pela inovação e pelo mundo das tecnologias. Acredita que a Oceanografia e Meteorologia são áreas de empreendedorismo bem promissoras, e aposta todas suas fichas por aí. A inspiração vem do surf, que como seu trabalho, tem ligação com o oceano. Sempre disposto a aprender, vive seu sonho de um dia se tornar um empreendedor bem sucedido, mas sem nunca esquecer suas raízes acadêmicas.  

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Ressurgência Costeira

Por Gabrielle Souza

   Você já ouviu falar no fenômeno chamado “Ressurgência”? Sabe do que ele é capaz? Hoje no Descomplicando Netuno nós vamos explicar para você!


   Ressurgência também conhecida como “upwelling” (em inglês) consiste no afloramento da água fria e profunda para a superfície. Próximo da costa, este fenômeno ocorre, principalmente, por causa da ação dos ventos, que ao soprar paralelamente a costa, empurram a água da superfície fazendo com que ocorra a substituição da mesma pela água profunda. A figura abaixo ilustra como este processo ocorre. Mas não é qualquer vento que pode gerar a ressurgência! Ele precisa ter a direção certa, e estar no lugar certo!

Imagem adaptada: National Oceanic and Atmospheric Administration U.S. Department of Commerce (NOAA). Fonte: https://oceanservice.noaa.gov/facts/upwelling.html

   Mas você já se perguntou qual a importância da ressurgência?! A água profunda ajuda na “fertilização” das águas superficiais, pois é rica em nutrientes (Post sobre fertilização). Assim sendo, o processo de ressurgência auxilia na manutenção da cadeia alimentar. E como isso funciona?! Na cadeia trófica marinha os organismos estão localizados em níveis, ou seja, o fitoplâncton como produtor primário, serve de alimento para o zooplâncton, que serve de alimento para diversos peixes, que servem de alimentos para predadores de topo de cadeia, como, por exemplo, os tubarões. Deste modo, a ressurgência reflete na produção de peixes, pois quanto mais nutrientes disponíveis, maior a quantidade de fitoplâncton e consequentemente maior a quantidade de zooplâncton, aumentando a quantidade de alimento para os peixes. 

   Na costa brasileira, o principal ponto de ressurgência é a região de Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro. Durante o verão com o aumento da frequência e intensidade dos ventos de nordeste as águas profundas afloram e ficam mais frias nesta região. Por isso, por mais calor que esteja, dar um mergulho é tão sofrido em diversas praias fluminenses.


Para saber mais: 





Referências

GEOGRAPHIC, National. Upwelling: Upwelling usually results in rich fisheries.. Disponível em: <https://www.nationalgeographic.org/encyclopedia/upwelling/>. Acesso em: 15 jul. 2017.

SCHOOLS, Science Education Through Earth Observation For High. Quando a água retorna do fundo do oceano.Disponível em: <http://www.seos-project.eu/modules/world-of-images/world-of-images-c03-p21.pt.html>. Acesso em: 15 jul. 2017.

COMMERCE, National Oceanic And Atmospheric Administration U.s. Department Of. What is upwelling?: Upwelling is a process in which deep, cold water rises toward the surface.. Disponível em: <https://oceanservice.noaa.gov/facts/upwelling.html>. Acesso em: 15 jul. 2017.

LALLI, Carol M.; PARSONS, Timothy R.. Biological Oceanography An Introdution. 2. ed. Vancouver, Canadá: The Open University- Set Book, 1998. 337 p. Elsevier Butterworth-Heinemann.

SILVA, Gustavo Leite da et al. ESTUDO PRELIMINAR DA CLIMATOLOGIA DA RESSURGÊNCIA NA REGIÃO DE ARRAIAL DO CABO, RJ. -, Rio de Janeiro, p.1-11. Disponível em: <http://www.enapet.ufsc.br/anais/ESTUDO_PRELIMINAR_DA_CLIMATOLOGIA_DA_RESSURGENCIA_NA_REGIAO_DE_ARRAIAL_DO_CABO_RJ.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2017.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Um documentário sobre salmões e mulheres cientistas

Por Jana M. del Favero





   Em um dos meus primeiros posts aqui no blog, escrevi sobre o documentário “Mission Blue”, que conta a história da incrível bióloga marinha Sylvia Early, e suas ações pró oceano (releia aqui).

   Recentemente assisti outro documentário que me tirou o fôlego e resolvi compartilhar com vocês, pois ele abrange todas as sessões desse blog: “ciências do mar”, “vida de cientista” e “mulheres nas ciências”.

   O documentário “Salmon Confidential” (Salmão Confidencial) relata a luta da bióloga Alexandra Morton para salvar os salmões selvagens da Colúmbia Britânica, Canadá. A bióloga mudou para a região para estudar as orcas, mas após relatos do aumento da mortalidade de salmões selvagens, decidiu investigar o que estaria causando essas mortes. Analisando os salmões selvagens encontrados mortos, ela encontra uma doença originária da Noruega e que já devastou fazendas de salmão em outros países, como o Chile. Como a região onde os salmões selvagens estavam morrendo possui diversas fazendas de criação do peixe, a pesquisadora tenta dialogar com os fazendeiros e pedir salmões para estudar... A partir daí começa uma batalha: os fazendeiros não liberam espécimes para estudo e lançam relatórios alegando que eles mesmos analisaram e que os salmões de cultivo da região estavam saudáveis. Mas a pesquisadora não desiste, analisa os salmões cultivados na região encontrados em supermercados e passa a observar, mesmo de longe, as fazendas dos peixes. O caso vai parar na justiça e a batalha continua, envolvendo os pesquisadores e os pescadores de salmão selvagens (prejudicados com a alta mortalidade) contra os fazendeiros e o governo (que fica do lado de quem lhe dá maior retorno financeiro!).

   E é exatamente por isso que esse documentário é de tirar o fôlego, ele aborda diversas questões polêmicas: cultivo versus pesca; o preconceito que a bióloga Alexandra Morton sofre por ser mulher em um ambiente dominado por homens, os entraves burocráticos, a dificuldade de fazer uma pesquisa sem apoio e o fato do governo escutar e apoiar o lado que lhe dá maior retorno financeiro sem analisar os fatos!

Fazenda de salmão na Colúmbia Britânica, Canadá (Fonte: http://www.salmonconfidential.ca)


A bióloga Alexandra Morton (Fonte: http://www.salmonconfidential.ca)



   Portanto, estoure sua pipoca, assista esse documentário que está disponível online e deixe sua opinião nos comentários. Adoraria escutar vocês!


   Para assistir o documentário (infelizmente só consegui em inglês e sem legenda): http://www.salmonconfidential.ca


   Para acompanhar as notícias via Facebook: https://www.facebook.com/SalmonConfidential/


   Para saber mais sobre Alexandra Morton e sua luta:

sexta-feira, 14 de julho de 2017

13 anos de faculdade

Por Ana Lidia Salmazo 

Ilustração: Lídia Paes Leme 
   Era agosto de 2004, eu tinha 19 anos e após uma doença grave e repentina, perdi meu pai, meu chão, minha estabilidade e principalmente minha concentração nos estudos. Na época, eu fazia cursinho, pensava em cursar medicina, era boa aluna e disciplinada. E então, foram uns quatro meses de tristeza, apatia e total desinteresse até que chegou a hora do vestibular...


   Fui na banca de jornal (é pessoal, a internet fez maravilhas pelos sedentários!!) e comprei meu manual/ficha de inscrição da famosa e temida FUVEST, o vestibular mais concorrido do país...amarelei e não tive coragem de prestar medicina.



   Nesta época, uma das revistas que vinham no “pacote FUVEST” era uma lista, com uma pequena descrição de todos os cursos oferecidos pela USP, em ordem alfabética. Ao consultar a possibilidade de prestar Odontologia, me deparei, pela primeira vez na vida com a descrição de “OCEANOGRAFIA”. Logo eu, pseudo-futura surfista, que amava a praia, o mar, a maresia e já tinha assistido “Procurando Nemo” umas mil vezes... Fiz uma pesquisa rápida, assisti uma reportagem que dizia que “oceanografia é a profissão do futuro” e me decidi. Prestei. Passei. Fui. 

   Eu não tinha a menor ideia em que eu estava me metendo! Minha vida mudou completamente, foram sete anos da experiência mais profunda que já passei e claro houveram muitas coisas boas e muitas coisas ruins.


   Dentre as coisas boas, minha vida social e minha independência deram um salto quase quântico! Fui morar “sozinha” com um monte de gente maravilhosa, fiz amigos e principalmente amigas incríveis, tive contato com pessoas cultas, malucas, intelectuais, diferentes, acadêmicos famosos e esquisitos de todos os tipos. Foram muitas quintas na ECA (Escola de Comunicação e Artes) e tardes no CEPE (Centro de Práticas Esportivas), vários perrengues de grana e da minha nova vida adulta, mas só posso dizer que, neste sentido (e em muitos outros) a USP foi uma grande Universidade para mim e me “formou” de várias maneiras, mesmo que eu nunca tenha um diploma que mostre isso.


   Me lembro também de alguns professores que, mesmo em meio ao meu desinteresse acadêmico, conseguiram me tocar e me ensinar algumas coisas, e depois vieram a ser muito importantes na minha vida. E, claro, as viagens de campo!!! Só quem já fez uma viagem assim, no início da faculdade, com a turma toda da sala, sabe o quanto é divertido. Me lembro tanto das práticas, que tornam qualquer curso mais tolerável, quanto das noites de “confraternização” com os colegas com a mesma nostalgia e saudades... (Ah! A juventude!)

   Agora, a parte complicada: eu cursava Oceanografia, na USP, que é um curso de exatas, oferecido em São Paulo, capital. E, apesar de ter algumas disciplinas de geologia, química e biologia, o curso tem muitas matérias pesadas de exatas. Tem cálculos (vááááriosss), tem mecânica dos fluidos (disfarçada com outro nome e um professor que, digamos, leva jeito em reprovação em massa), tem programação (que eu inventei de fazer com uma turma da FÍSICA, à noite!!! Pensa num arrependimento!), geofísica, ondas e marés... É muita matemática ! Além disso, a maioria dessas disciplinas eram pré-requisito para alguma outra (ou outras) e quando você pegava uma dependência já estava um ano a mais na faculdade no mínimo, sem choro nem vela!


   Então, comecei a entrar numa bola de neve. Após seis anos na universidade, faltavam poucas matérias, em sua maioria de exatas, para terminar, mas eu iria levar mais três anos para cursá-las, caso não reprovasse de novo em nada. Eu não gostava do curso, não tinha tesão de estudar, muito menos aquele monte de equações bizarras, e naquele ponto não me via como oceanógrafa ou tinha alguma ideia do que ou onde gostaria de trabalhar, caso me formasse algum dia. Além disso, precisava trabalhar, de 6 a 8 horas, 6 dias na semana de garçonete, no restaurante mais lotado da cidade. Estava sempre cansada, insatisfeita, atrasada e deprimida. Então, tomei a melhor e mais difícil decisão da minha vida. Larguei tudo.

   Tranquei a faculdade, pedi demissão, entreguei meu apartamento em São Paulo e voltei para Campinas. Demorei um ano, nessa nova reviravolta, para me conhecer e repensar. Nesse momento, um emprego diferente apareceu. Guia de eco-turismo e professora em campo!!! Conheci muitos lugares e pessoas e no final, acabei conhecendo a mim mesma.

   Descobri meu amor pela natureza, por lugares simples, mas ricos de verde, de energias e de cheiros. Descobri que gosto de ensinar, que tenho encantamento pelas crianças e suas sabedorias inatas. E que eu realmente gosto de saber. Gosto de aprender e até de estudar (vejam só! Depois de ter crises de pânico na iminência de uma prova de Cálculo IV, eu redescobri o prazer de sentar e estudar!!) e comecei a estudar possibilidades. 

   Decidi estudar Biologia, principalmente pela beleza desta ciência, que investiga os mais complexos processos que envolvem o surgimento, a evolução e a manutenção da vida no planeta. Mas também pela minha facilidade na área, além de já ter bastante bagagem da primeira universidade. É, alguns decidem suas carreiras aos 17, outros, aos 26.... 

   Comecei, então, tudo de novo! Agora na era digital, pós governo Lula, me inscrevi no ENEM, pela internet mesmo! E passei na UFSCar, sem precisar de vestibular!! Gosto muito do curso! Me interessa e me intriga a maioria dos assuntos. Estudo, quase tudo, por prazer, sou uma boa aluna novamente e tive a chance de estudar um ano na Suécia, pelo programa federal Ciências sem Fronteiras! 

   Como a vida é uma caixinha de surpresas, dentre todas as áreas e possibilidades da biologia, hoje estou no último ano, fazendo meu Trabalho de Conclusão de Curso com microbiologia marinha, no laboratório de plâncton! Acrescentando nessa nova descoberta de carreira aquele velho amor pelo mar que me fez embarcar em toda essa viagem. 




Ana Lídia Salmazo, quase oceanógrafa, quase bióloga...

terça-feira, 11 de julho de 2017

III Congresso de Conservação Marinha (ConMar)

O ConMar está chegando e ainda dá tempo de se inscrever! Ele visa à integração de conhecimentos entre diversos projetos de conservação marinha e seus pesquisadores, no intuito de colaborar com novas ideias que ajudem a mitigar os imensos problemas sofridos pelos oceanos.


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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Termoclina


Você já ouviu falar em termoclina? O Descomplicando Netuno de hoje vai explicar pra você!


Os corpos d’água são separados por camadas que são determinadas por suas características físico-químicas, como temperatura e salinidade. A camada mais superficial do oceano tem contato com ondas superficiais e ventos, o que facilita a mistura das águas e, consequentemente, a distribuição de calor. Abaixo desta camada superficial (ou de mistura) encontra-se uma camada de transição entre as águas superficiais, mais quentes, e as  águas profundas, mais frias.  Essa camada de transição recebe o nome de termoclina, e é facilmente reconhecida por ser a camada em que ocorre uma queda brusca de temperatura (veja a ilustração abaixo).

Profundidade (3).png
Perfil generalizado de temperatura x profundidade em zonas temperadas. A linha branca sólida demonstra uma condição de inverno com uma camada superficial mista de temperatura homogênea acima da termoclina permanente. As linhas verdes tracejadas mostram a formação das termoclinas sazonais nas águas superficiais (primavera e verão), isto devido à elevação da radiação solar, que coincide com a diminuição dos ventos (Imagem baseada no livro “Biological Oceanography an introduction” de Carol M. Lalli e Timothy R. Parsons).

A  profundidade e a intensidade da termoclina não é exatamente igual para todas as latitudes e áreas. Ela é um fenômeno semi-permanente em  baixas e médias latitudes (equador e trópicos), zonas com maior incidência de energia solar. As águas polares, por outro lado, possuem pouca incidência solar, não formando termoclina, visto que as águas superficiais destas regiões são tão frias quanto as águas mais profundas. A termoclina pode também variar sazonalmente:  em zonas temperadas uma termoclina sazonal  é formada na camada superficial durante o verão, pois com o aumento da temperatura e com a diminuição do vento há pouca mistura para distribuição do calor, instalando assim uma estratificação térmica; ela então  persiste até o outono, quando a temperatura diminui e os ventos aumentam, provocando a mistura das águas e desfazendo a termoclina sazonal (veja a ilustração acima).
A termoclina geralmente coincide com a picnoclina, pois a salinidade e temperatura influenciam na densidade da água. Águas mais quentes e menos salinas são menos densas, e águas mais frias e mais salinas são mais densas. A região de rápida mudança na densidade é conhecida como picnoclina, e exerce papel de barreira da circulação vertical da água, afetando a distribuição dos nutrientes nas camadas do oceano, tornando-os, por exemplo, indisponíveis para o fitoplâncton na zona eufótica (Veja aqui o post sobre as divisões no oceano e relembre o que é zona eufótica: http://batepapocomnetuno.blogspot.com.br/2016/11/divisoes-oceanograficas.html).


Referências:

What is a thermocline?: A thermocline is the transition layer between warmer mixed water at the ocean's surface and cooler deep water below.. 2015. NOAA- National Oceanic and Atmospheric Administration U.S Department of Commerce. Disponível em: <http://oceanservice.noaa.gov/facts/thermocline.html>. Acesso em: 04 jun. 2017.


GARRISON, Tom. Fundamento da Oceanografia. 4. ed. Norte-americana: Cengace Learning, 2010. Tradução: por Cintia Miaiji, et al. 422 p.


LALLI, Carol M.; PARSONS, Timothy R.. Biological Oceanography An Introdution. 2. ed. Vancouver, Canadá: The Open University- Set Book, 1998. 337 p. Elsevier Butterworth-Heinemann.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Marchas pela ciência e cultura popular: “O que nós temos aqui é uma falha de comunicação”




Ilustração: Caia Colla

   Minha intenção original ao escrever esse post era tratar da Marcha pela Ciência e a ideia geral da politização da ciência, mas depois de assistir recentemente a um programa de ciência que era popular entre as crianças nos EUA na década de 1990 “Bill Nye Saves the World” (Bill Nye Salva o Mundo) e que agora está no Netflix (mas ainda sem tradução em português), eu decidi focar na nossa falha como cientistas em nos comunicar com o grande público. 
   Deprimente, eu sei, mas eu realmente acredito que existe uma falta de conexão entre nossas tentativas de fazer a ciência acessível e chamativa para o público em geral, para que as pessoas realmente nos escutem. A divulgação para o grande público é uma grande parte das nossas propostas para receber fundos para pesquisa, mas quanto da nossa divulgação está funcionando de verdade, e como podemos educar as massas efetivamente?
   Conforme fui assistindo ao novo programa popular de Bill Nye, senti uma tristeza ao ver que aquela grande figura da minha infância, que ajudou a inspirar meu interesse pela ciência, não conseguia realmente explicar algumas das maiores incógnitas da ciência na percepção do público. O programa parece enigmático em alguns pontos, e acho que deve desencorajar alguns espectadores ao zombar de certos assuntos. Por exemplo, o episódio que ridiculariza a medicina homeopática é intitulado "Sintonize seu charlatômetro", o que implica que qualquer pessoa que acredite no medicamento homeopático é um "charlatão". Se eu acreditasse nessa medicina alternativa (leia-se “imaginária”), acho que eu não gostaria de ficar sentada assistindo a um episódio de uma pessoa, mais especificamente um engenheiro mecânico, zombando de mim. Embora isso seja pouco relevante, porque eu penso que a maioria do grupo de pessoas que assiste a esse programa seja composto por cientistas que simplesmente amam assistir coisas do senso comum vistas de outras maneiras (ou simplesmente querem sentir a nostalgia de assistir o seu amigo de infância da ciência, Bill Nye). Este é um exemplo de cientistas ensinado/entretendo outros cientistas, e é apropriado que isso tenha vindo à tona seguindo outro esforço similar, embora de espectro mais global.
   A Marcha pela Ciência foi organizada como qualquer mobilização pacífica por mudanças, sendo: uma comunidade sentindo um problema crescente, e membros dessa comunidade querendo que o problema seja conhecido. Nos Estados Unidos, esse problema crescente é o uso de “fatos alternativos” (novamente, “imaginários”) no lugar da ciência real, que vem sendo vendida como verdade pelo atual governo. Isto levou a um corte nas verbas para as agências financiadoras da ciência e a um menor esforço para a proteção ambiental. Para aqueles que ainda não sabem, esclareço que o presidente Trump nomeou como o novo chefe da Agência de Proteção Ambiental americana (Environmental Protection Agency - EPA) um homem que nega que a mudança climática seja causada pela humanidade.

Uma concentração de 50.000 pessoas foi estimada no parque Boston Common, armadas com placas engraçadas e conhecimento, para marchar pela ciência.


   Mas essa marcha não ocorreu apenas nos Estados Unidos. No Dia da Terra 2017 (celebrado em 22 de abril) marchas pipocaram por todo o mundo, focando em assuntos específicos de uma localidade ou importantes para todos nós, merecendo nossa atenção. Algumas razões pelas quais as pessoas estavam marchando foram publicadas no site da revista Science (link abaixo), incluindo esta frase de um bioquímico Austríaco:
   “Sentimentos anti-esclarecimento estão crescendo por todo o mundo. Muitos austríacos são contra a engenharia genética mas não sabem o que é um gene, por exemplo. Eu tenho um problema com isso. Ou o sentimento anti-vacina. É quase um modismo ser contra a ciência nos dias de hoje.” -Renée Schroeder
   Martin Stratmann, o presidente do Max Planck Society (uma organização de pesquisa alemã fundada em 1948), também marchou, dizendo: “Esta é uma marcha pró-ciência e pró-fatos, não uma marcha contra Trump… Hoje, a ciência é mais importante do que foi antes, mas evidência e conhecimento estão sendo questionados em muitos lugares, incluindo a política.”
   Não me leve a mal. A marcha foi um grande evento. Eu participei da marcha em Boston, Massachusetts, EUA, e nós tivemos uma presença estimada de 50.000 cientistas e simpatizantes que apareceram em um dia miseravelmente frio e chuvoso para mostrar que isso é algo importante para nós. Eu ouvi histórias inspiradoras de médicos, histórias de superação de adversidade de uma mulher negra engenheira, e fui requisitada a tornar-me candidata política por George Church (O CARA do genoma humano - ops, momento nerd). Foi um momento divertido para se reunir com pessoas com ideias semelhantes e falar sobre os problemas que enfrentamos. Mas aí está o problema: estávamos falando com pessoas com mentalidade semelhante. Alguém que pode estar interessado em aprender fatos, mas não corre em nosso grandioso círculo da ciência, talvez não tenha sabido que a marcha estava acontecendo, ou para o que era aquela marcha. Minha mãe, uma enfermeira instruída, fica no limite entre ser ou não ser parte da comunidade. Mesmo com a postagem de sua filha sobre a próxima marcha, minha mãe não sabia porque eu estava em Boston usando um chapéu de de tricô estranho (veja a imagem abaixo). De alguma forma, nós pessoas da ciência fomos apanhadas nos divertindo na em uma reunião e esquecemos de dizer ao resto do mundo para o que ela servia. 

Esquerda: alguns/algumas nerds passaram horas tricotando chapéus de cérebro e fazendo placas (essa sou eu na extrema esquerda). O colega estudante de Oceanografia, Robert Wildermuth, marchou comigo.
Meio: A estudante Laura Moritzen da Universidade de Massachusetts, em Dartmouth,  está investida no futuro do oceano e nos caranguejos que ela pesquisa.
Direita: continuando com o ímpeto da Marcha das Mulheres, amamos as "mulheres indecentes" da ciência!


   Então, se esses fóruns não são úteis para transmitir nossa ciência ao público em geral, o que é? Como comunicamos eficazmente ideias que são, às vezes, muito complexas às massas? Eu acredito que a chave é começar com os jovens. Precisamos chegar às escolas para moldar as mentes para pensar sobre o método científico básico e ensinar as crianças como chegar às suas próprias conclusões com base em fatos e não em mídia. Deixe as crianças se apaixonarem pelo conhecimento e pela busca do conhecimento, assim como Bill Nye, o Cara da Ciência, me ensinou, e como Carl Sagan ensinou a geração antes da minha. Eu não acho que os adultos que não possuem um pensamento acadêmico são uma causa perdida, mas eu acho mais difícil recondicionar suas mentes a nem sempre confiar no que lêem. Sinceramente, ver e compartilhar um post do Facebook sobre planos secretos do governo para nos infectar com doenças através da vacina contra a gripe é um pouco mais fácil e muito mais emocionante do que procurar as fontes e verificar se a publicação é falsa.
   Talvez, este blog possa ser um bom começo para a introdução do público à ciência. Nós escrevemos posts com a intenção de tornar acessíveis nossos contos sobre oceanografia e de mulheres em ciência, mas nós tendemos a compartilhá-los com outros cientistas. Por quê? Eu desafio você a convidar uma pessoa que talvez não esteja interessada em ciência oceânica para ler uma postagem do blog que você acha interessante. Compartilhe sua ciência com aquele amigo que estuda literatura! Ou direto! Ou liturgia! Você nunca sabe o que eles acharam interessante, e isso pode levar a uma boa discussão.

Trailer de “Bill Nye Saves the World”: https://www.youtube.com/watch?v=g-_HKOcYBK8

Referências:

Artigo da Science: Why the rest of the world is marching
Science News Staff (April 13, 2017)
Science 356 (6334), 119. [doi: 10.1126/science.356.6334.119]