quinta-feira, 24 de novembro de 2016

10 animais marinhos que inspiraram pokémons


Já perceberam que a realidade sempre é utilizada como referência para a representação de seres da ficção? Seja em filmes, games ou em desenhos-animados, parece que a natureza já é criativa de tal forma que é mais fácil para os desenhistas ou roteiristas modificarem aquele modelo que conhecemos. A figura exótica da tela (ou dos quadrinhos) pode ter sido inspirada em um animal trivial. Em alguns casos, o modelo assustador da realidade é transformado em uma figura fofa na ficção. Em outros, até as relações ecológicas existentes no mar são mantidas na fantasia. Com a febre que o jogo Pokémon Go se tornou em 2016, nós pensamos em mostrar como seriam alguns pokémons na vida real.
Conheça agora 10 animais marinhos que inspiraram pokémons!

1. Mantine
Raia Manta

Raia Manta e Mantine
(Fontes: Flickr e Bulbapédia)

Cara de um, focinho do outro. Assim como as raias, o Mantine é um pokémon com corpo achatado dorsoventralmente e nadadeiras  longas que parecem continuar o corpo. Até as antenas do Mantine se assemelham aos lobos cefálicos da raia Manta! As raias são muito próximas filogeneticamente dos tubarões - ambos são da subclasse Elasmobranchii; mas as fendas branquiais, que são laterais nos tubarões, são localizadas no ventre das raias devido ao seu formato achatado. A água que entra pela boca da raia sai através das fendas branquiais, passando antes pelas brânquias, onde ocorre a troca gasosa. Além das semelhanças morfológicas, o comportamento das raias mantas e do Mantine é bem parecido: mesmo pelágicos, ambos conseguem “voar”! Mais precisamente, as raias manta conseguem executar saltos de quase 3 metros de altura sobre a coluna d’água! As razões para esses saltos não são bem compreendidas - os pesquisadores sugerem que as raias mantas saltam para realizar o parto, como parte do comportamento de corte, para se divertir ou retirar as rêmoras (veja o próximo pokémon, digo, o próximo animal da lista) do dorso. Embora a acrobacia dos saltos seja encantadora (veja neste link as raias mantas saltando), os “pousos” são mais desajeitados - a “barrigada” que as raias mantas dão no mar criam um barulho tão alto que pode ser percebido a longas distâncias por outros indivíduos - e assim elas se comunicam umas com as outras.

2. Remoraid
Rêmora

Rêmora e Remoraid
(Fontes: Flickr e Bulbapédia)

O Mantine tem uma relação interessante de comensalismo com outro pokémon: o Remoraid. A mesma relação que a rêmora possui com diversos organismos marinhos, dentre eles (advinhem) a raia manta!
O Remoraid, assim como a rêmora (será que os nomes parecidos são coincidência?), pegava carona nas nadadeiras do Mantine, bem como a rêmora nas raias, tubarões e tartarugas. As nadadeiras do Remoraid e sua relação simbiótica com o Mantine são suas únicas características que remetem à rêmora. Diferentemente do pokémon, a rêmora tem a nadadeira dorsal modificada em uma ventosa. Assim o animal consegue se aderir aos outros animais, viajar por longas distâncias sem mover um músculo e ainda aproveita as sobras da alimentação do hospedeiro.

Comensalismo entre a raia manta e rêmoras, semelhante à relação entre Mantine e o Remoraid
(Fontes: Flickr e Bulbapédia)


3. Octillery
Polvo

Polvo e Octillery
(Fontes: Flickr e Bulbapédia)

O Remoraid, quando evolui, dá origem ao Octillery (haja mutação para gerar tantas modificações anatômicas, hein?). Tanto o pokemón quanto o cefalópode têm o corpo constituído por uma cabeça de onde partem oito tentáculos. Diversas ventosas são distribuídas ventralmente em ambos. Enquanto a boca do Octillery é localizada frontalmente na cabeça do pokémon, a boca dos polvos é localizada ventralmente, no meio da coroa de tentáculos. Além disso, os polvos têm na boca um bico rígido, diferente da boca em formato de sifão do Octillery. Ambos são marinhos e, quando em perigo, soltam tinta para confundir o predador.

4. Horsea
Cavalo-marinho

Cavalo-marinho e Horsea
(Fontes: Flickr e Bulbapédia)

O Horsea e suas formas evoluídas (Seadra e Kingdra) são pokémons de água que são a cara - e o corpo - dos cavalos-marinhos. Cabeça alongada com filamentos (lembrando a crina de um cavalo), boca localizada na extremidade do focinho tubular, natação com o corpo na vertical e até o cuidado dos ovos é igual - diferente do usual no reino animal e pokémônico, os machos que os carregam, não as fêmeas. A diferença entre eles está na velocidade de locomoção: os cavalos-marinhos são considerados um dos peixes mais lentos dos oceanos, enquanto o Horsea e suas evoluções nadam super rápido (para saber mais sobre cavalos-marinhos leia nosso post “
Querida, estou grávido!”).

5. Gyarados e Dratini
Peixe-remo

Dratini, peixe-remo e Gyarados
(Fontes: Bulbapédia, nenufair.tumblr e Bulbapédia)

O peixe-remo (
Regalecus glesne) pode chegar a mais de 10 m de comprimento, tem corpo serpentiforme e se move como uma cobra. Ele nada verticalmente, diferente dos pokémons Gyarados e Dratini - a não ser quando se encontra em águas rasas.
O peixe-remo assusta pelo seu tamanho, e deu origem a várias lendas antigas sobre serpentes marinhas que afundavam embarcações. Aparentemente, as lendas sobre o peixe-remo inspiraram o Gyarados: este pokémon com cara de mau tem temperamento feroz e tendência a destruição desenfreada. No entanto,  o peixe-remo é inofensivo e raramente visto  - além de bons camufladores, eles vivem entre 150 e 300 m de profundidade. Até o ano passado, haviam sido registradas apenas cerca de 500 observações deste animal. Assim, o peixe-remo se assemelha mais ao Dratini: inicialmente, pensava-se que era um mito, mas o Dratini foi encontrado vivendo em águas profundas. E aí, qual dos dois você acha que se assemelha mais ao peixe-remo?

6. Parasect
Caranguejo-eremita

Caranguejo-eremita e Parasect
(Fontes: Flickr e Bulbapédia)

Os caranguejos-eremitas são bastante conhecidos por andarem carregando uma concha de molusco abandonada ou outras estruturas semelhantes. Além de servir de abrigo, isso possibilita que estes animais protejam seu abdômen que é bastante mole.
Para aumentar a proteção contra predadores, alguns membros do táxon Paguroidea, ao qual os caranguejos-eremitas pertencem, transportam anêmonas. Assim, além da proteção física da concha, eles ganham a proteção química das toxinas dos tentáculos da anêmona! O pokémon Parasect, por sua vez, carrega um cogumelo que também produz toxinas. Entretanto, o Parasect é parasitado pelo fungo, enquanto os Paguroidea têm relação de protocooperação com as anêmonas que carregam sobre a concha.  

7. Gorebyss
Rhinochimaeridae

Gorebyss e o peixe Rhinochimaeridae
(Fontes: Bulbapédia e suggest-keywords.com)

O nome Rhinochimaera vem do grego rhinos = nariz e do latim chimaera = monstro marinho. Os peixes desse gênero possuem um focinho estreito e pontiagudo e um corpo alongado, muito semelhante ao Gorebyss. A diferença é a fofura: enquanto o peixe, como outros animais de zonas abissais (peixes do gênero Rhinochimaera vivem entre 300 e 1500 m de profundidade), têm uma aparência singular, o Gorebyss poderia facilmente pertencer ao que chamamos de fauna carismática (leia mais sobre isso no nosso post “Quem estuda o feio, bonito lhe parece”) - note que o espinho do peixe foi transformado em uma delicada e flexível projeção na cabeça do pokémon.

8. Staryu
Estrelas-do-mar

Estrela-do-mar e Staryu
(Fontes: Flickr e Bulbapédia)

Tanto o pokémon Staryu quanto as estrelas-do-mar possuem cinco braços. Se o animal ou o pokémon, que também é marinho, perdem um dos apêndices, outro cresce a partir do disco central - e, no caso das estrelas-do-mar, uma nova estrela pode se desenvolver a partir do braço cortado, processo chamado de reprodução assexuada. Neste disco há um núcleo que parece uma jóia vermelha no Staryu. Analogamente, as estrelas-do-mar possuem em sua superfície aboral o madreporito, uma abertura calcárea por onde passa a água para o sistema ambulacral dos echinodermatas.
O núcleo do Staryu pode piscar, o que indica uma ligação do pokémon com as estrelas do céu. Então será que podemos fazer um paralelo com o madreporito das estrelas-do-mar e afirmar que ele indica uma ligação íntima do interior do animal com os oceanos?

9. Shellos
Nudibrânquios

Nudibrânquio da espécie Chromodoris lochi e Shellos
(Fontes: Pinterest e Bulbapédia)

Os nudibrânquios são moluscos que possuem uma riqueza de cores no corpo incrível! Isso lhes permite uma camuflagem eficiente nos recifes de coral, onde eles vivem. O pokémon Shellos é idêntico ao
Chromodoris lochi, uma espécie de nudibrânquio que ocorre no Indo-Pacifíco. Além do formato achatado e ondulado e da cor do corpo, ambos possuem um par de “antenas” (rinóforos), que são estruturas sensoriais que ajudam a guiar este molusco através da percepção química do ambiente. As “asinhas” do Shellos são na verdade brânquias que ficam “desprotegidas” no dorso dos nudibrânquios - daí o nome do grupo.

10. Stunfisk
Peixe stargazer

Peixe stargazer e Stunfisk
(Fontes: Coral Reef Photos e Bulbapédia)

O peixe stargazer é um dos animais com aparência mais exótica do fundo do mar! Normalmente ele fica escondido na areia - mas fica observando tudo com seus olhos que são localizados no topo da cabeça do animal, e não lateralmente, como na maioria dos peixes. O Stunfisk , com seu corpo largo, achatado e marrom, é o próprio stargazer - no entanto, suas nadadeiras podem bater como asas para fazer o pokemón se locomover pelo ar, coisa que esse peixe não faz, e sua boca é uma espécie de bico.  
O Stunfisk também gosta de se enterrar, mas mais perto da praia, e não em águas profundas como o peixe. Quando desavisados pisam no pokémon, são eletrocutados por ele, que sorri enquanto dispara a carga elétrica. Bastante semelhante ao peixe, que além de espinhos venenosos perto das suas nadadeiras, consegue dar choques de até 50 volts. Mas ele não sorri enquanto o faz.

A natureza serve de inspiração para a arte. Muitos elementos da ficção baseiam-se na vida real. É interessante observar que, ainda mais encantadores que os pokémons, os organismos que vivem ao nosso redor têm uma riqueza incrível de formas e comportamentos! Nesse texto, 10 comparações foram feitas, mas muitas outras existem. E você, lembra de algum outro pokémon, personagem de HQ, de série ou de filme que se assemelhe a animais marinhos? Comente!


Para saber mais:

Bulbapedia (enciclopédia sobre Pokémon)  

Como vivem os peixes de mar profundo - Revista Mundo Estranho


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Divisões Oceanográficas

Por Gabrielle Souza


Os oceanos podem ser subdivididos de acordo com diferentes critérios. Sob o ponto de vista ecológico, os cientistas dividem os oceanos em duas zonas: pelágica e bentônica.  Pelágico se refere a tudo que se encontra na coluna d'água, abrangendo desde a superfície até áreas próximas ao fundo. Já o ambiente bentônico corresponde ao fundo dos oceanos e abrange costas, áreas litorâneas e recifes de corais.

Também dividimos os oceanos de acordo com a distância da costa e a profundidade. Assim temos as regiões neríticas, que estão sobre a plataforma continental, e as regiões oceânicas que estão além da plataforma continental. A região nerítica varia com o nível do mar e tem uma profundidade média de 200 metros. Nesta encontramos a maior diversidade de vida marinha, por ser uma região onde penetra mais luz.

Divisões básicas das zonas oceânicas sob o ponto de vista ecológico. Adaptado de:  http://m1.paperblog.com/i/202/2022745/ecosistemas-agua-salada-zona-neritica-R-86SZhB.jpeg

Se considerarmos a variação na incidência da radiação solar de acordo com a profundidade, ou seja, a proporção de radiação luminosa capaz de penetrar na coluna de água, podemos dividir os oceanos em: 1) zona fótica, onde existe luz suficiente para a fotossíntese, atingindo entre os 100 e 200 metros de profundidade; 2) zona disfótica conhecida também como zona do crepúsculo, onde apenas 5% da luz solar penetra e essa luz é fraca para a fotossíntese e 3) zona afótica, onde não penetra luz.  Essa distribuição da radiação luminosa afeta diretamente os tipos de organismos que vivem nestes ambientes.

Podemos dividir o ambiente bentônico de acordo com a variação de maré e a morfologia do fundo: Supralitoral, Litoral, Sublitoral, batial, abissal, hadal; e o ambiente pelágico quanto a profundidade do oceano: Epipelágica (0 – 200m), Mesopelágica (200 – 1000m), Batipelágica (1000 – 4000m), Abissopelágica (4000 – 6000m), Hadopelágica (> 6000m).

Divisão básica das zonas oceânicas sob o ponto de vista morfológico. Adaptado de: http://www.iupui.edu/~g115/mod15/lecture06.html

Divisão Básica dos ambientes marinhos de acordo com a variação de maré e a morfologia do assoalho oceânico. Adaptado: Copyright © 2005 Pearson Prentice Hall, Inc.

Os organismos que habitam os oceanos também são classificados de acordo com cada ambiente, bem como por sua mobilidade, tamanho e modo de alimentação. Nos ambientes bentônicos vivem plantas e animais associados ao fundo do mar, como por exemplo as cracas, esponjas e estrelas-do-mar. Já o ambiente pelágico compreende o plâncton, que são organismos com locomoção limitada, que não conseguem vencer as correntes marinhas, e o nécton, que compreende os organismos com maior capacidade de locomoção, como peixes, baleias e golfinhos.

 Algumas espécies de animais bentônicos e pelágicos (que incluem o plâncton e o nécton). A) Baleias (nectônicos; ambiente pelágico). B) Esponja (ambiente bentônico). C) Copépodes (planctônicos, ambiente pelágico). D) Ouriço-do-mar (ambiente bentônico).



Referências:
LALLI, Carol M.; PARSONS, Timothy R.. BIOLOGICAL OCEANOGRAPHY: AN INTRODUCTION. 2. ed. Vancouver, Canadá: Elsevier Butterworth-heinemann, 1997. 307 p.


Sites consultados:
TREE OF LIFE Web Project: Explore the Tree of Life. 1995-2005. Disponível em: <http://tolweb.org/tree/phylogeny.html>. Acesso em: 06 nov. 2016.
Como o Ouriço-do-mar pode contribuir com o sequestro de carbono. Disponível em: <http://www.ecycle.com.br/component/content/article/37-tecnologia-a-favor/1363-como-o-ourico-do-mar-pode-contribuir-com-o-sequestro-de-carbono.html>. Acesso em: 07 nov. 2016.
As baleias que se comunicam em código. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160209_vert_earth_baleia_tg>. Acesso em: 06 nov. 2016.
MEIRINHO, Patrícia do Amaral. Ecologia do zooplâncton. PPG Ecologia, Depto. de Ecologia, IB, USP, São Paulo, SP, Brasil. Disponível em: <http://ecologia.ib.usp.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=167&Itemid=469>. Acesso em: 06 nov. 2016.
Introduction to Oceanography: Classifying by Availability of Light. 1999-2007. Indiana University. Disponível em: <http://www.iupui.edu/~g115/mod15/lecture06.html>. Acesso em: 16 nov. 2016.

Posts relacionados:


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Nem todo coral quer sol e água quente!

Por Ágata Piffer, Beatriz Mattiuzzo e Samara Oliveira

Pense em corais e qual imagem lhe vem à cabeça? Aposto que a de  corais de água quentes, claras e rasas, como os da Grande Barreira de Coral australiana. Pois saiba que nem todos os corais são assim!


Contraste entre corais de águas quentes, à esquerda; e de águas frias, à direita. Imagens retiradas de http://soundwaves.usgs.gov/]
Corais são comumente associados com ambientes tropicais e rasos, porém outro tipo desses organismos também está presente em nossos oceanos: os corais de águas frias ou corais de águas profundas.

Sabe-se da existência de corais frios desde o século XVIII, contudo foi somente nas últimas décadas, com o aumento da exploração de águas profundas e melhores condições para a pesquisa, especialmente através de submersíveis e técnicas acústicas, que se teve noção da abundância e distribuição destes corais.

O nome destes animais refere-se ao ambiente em que são encontrados, caracterizados por temperaturas da água entre 4° e 12°C e profundidades desde 50 metros, em altas latitudes, até cerca de 4000 metros, próximo aos trópicos. Logo, os corais de águas frias são cnidários azooxantelados, isto é, não possuem as algas que tipicamente fazem simbiose com os corais em águas rasas e tropicais. São essas algas, chamadas de zooxantelas, que possibilitam que os corais quentes realizem fotossíntese.  Como a fotossíntese é impossível nas condições de baixa luz e temperatura no mar profundo, os corais frios não se associam com as zooxantelas. A estratégia destes animais é se alimentar como filtradores, se aproveitando da matéria orgânica suspensa na água marinha (bactérias, protozoários, zoo e fitoplâncton).

Os corais de águas profundas podem ser subdivididos em quatros categorias: 1) corais duros ou Scleratinia, que formam recifes; 2) corais moles ou Octocorallia, que não tem esqueleto de carbonato para formar recifes; 3) corais negros, exclusivos de águas profundas, e 4) hidrocorais, que alternam entre uma fase de pólipo, estrutura fixa, com uma fase de medusa, como uma água viva.

Algumas das principais espécies de corais de águas profundas. A) Espécie de coral duro, Paragorgia sp. (bubblegum coral) em Adak Island, Alaska. B) Espécie de coral mole, Callogorgia venticillata no monte submarino de Condor, Azores. C) Destaque aos corais negros, Antipatharia sp., na nova Zelândia. D) Hidrocoral Errinopsis reticulum. Imagens retiradas de Lophelia.org.

Ainda não é possível fazer estimativas significativas da biodiversidade associada a estes organismos, mas alguns estudos no Atlântico Nordeste apontam para mais de 1300 espécies entre corais frios e outros animais associados a esses ambientes (no Brasil foram registradas até o momento 56 espécies de corais frios, sendo Lophelia pertusa e Solenosmilia variabilis as mais abundantes). Esse número seria comparável a diversidade dos recifes tropicais. A grande diferença é que somente cerca de 10 espécies de corais profundos formam estruturas permanentes, os chamados recifes verdadeiros, que permanecem mesmo após a morte dos organismos, enquanto em águas quentes há mais de 800 espécies deste tipo.

Distribuição, Desenvolvimento e Endemismo

Os corais de águas profundas estão restritos a águas oceânicas e relativamente frias, contudo ainda não se tem uma visão completa de sua distribuição global, que depende muito dos esforços de pesquisa realizados nas diferentes regiões do planeta. Ou seja, o baixíssimo registro em grandes áreas da África e América do Sul não necessariamente reflete de fato a ausência destes organismos em tais locais, mas sim os poucos esforços de pesquisa. Apesar da aparente distribuição mundial desigual, novas descobertas são constantes, e hoje acredita-se que até poucos anos atrás os cientistas subestimavam a dimensão dos recifes frios.

Com os avanços nas pesquisas, já foi possível notar alguns padrões na distribuição destes organismos. A distribuição dos corais Scleractinia (corais duros) depende principalmente da química do carbonato na água, sendo que para que existam devem estar acima do horizonte de saturação da aragonita (ASH – Aragonite saturation horizon, que determina a profundidade máxima em que podemos encontrar este carbonato antes deste dissolver na água). Isto ajuda a explicar a abundância de registros no Atlântico Nordeste, na figura 2a, onde o ASH estimado seria 92000 metros de profundidade, ou seja, inclui toda a coluna de água. Explica também a ausência de recifes em áreas polares e no Pacífico Norte, onde o ASH é raso, entre 50 e 600 metros de profundidade, logo a fauna é dominada por corais moles como mostrado na figura 2b.


Distribuição mundial conhecida dos corais profundos. A) Corais duros formadores de recife  B) Diversas espécies de gorgônias (pontos vermelhos), corais negros (preto),  hidrocorais (azuis) e outros corais moles (tons de verde). Mapas retirados da base de dados da NOAA.

Além de dependerem da presença de aragonita, os corais frios também estão associados à produção primária superficial, isto é, a produção de matéria orgânica e seu transporte para águas profundas, pois uma produção alta na superfície significa disponibilidade de alimento para estes organismos no fundo. Assim, os corais frios estão presentes em locais com correntes de fundo rápidas, ou em áreas distantes da costa em que ondas e marés levam a um aumento da chegada de alimento para estes organismos. Também são encontrados ao redor de montes submarinos, onde a dinâmica de correntes aprisiona águas enriquecidas em nutrientes sobre os bancos, favorecendo o desenvolvimento de corais profundos. É o que ocorre, por exemplo, nos Bancos Porcupine e nos Montes Darwin, no Atlântico Nordeste, onde já se registrou matéria orgânica de fácil assimilação, como lipídios e ácidos polisaturados em até quase mil metros de profundidade.

A aparente dependência de padrões de circulação localizados, como em montes submarinos, tende a limitar a capacidade de dispersão e favorecer com que muitos corais de águas frias sejam espécies exclusivas de uma determinada área,  o que os cientistas chamam de endemismo. Por exemplo, um estudo recente no Pacífico Sudoeste resultou em 34% das espécies observadas como novas e potencialmente endêmicas.

Assim como os recifes de corais tropicais, os recifes profundos se desenvolvem após um assentamento inicial das larvas sobre um substrato duro. Com o crescimento da estrutura, outros organismos são atraídos pelo potencial habitat e o recife vai crescendo conforme novos pólipos se estabelecem sobre ele, usando o esqueleto das porções mais antigas, o que faz estas estruturas durarem muito tempo. Porém, pouco se sabe sobre a reprodução dos corais de águas frias. Algumas teorias defendem que fluxos sazonais de alimento, ligado às florações sazonais do fitoplâncton na superfície, influenciariam o transporte de carbono e forneceriam as condições periódicas ideais para a reprodução dos corais frios. Contudo, ainda é preciso realizar muitas pesquisas nesse campo, e nesse sentido estudos em andamento com marcadores moleculares parecem promissores.

Ameaças

Ainda há muito a se estudar sobre os corais de águas frias para ser possível determinar o que de fato pode ameaçar estes organismos. Até o momento, temos ciência de três principais ameaças: redes de arrasto de fundo, exploração de óleo ou gás e acidificação dos oceanos.

Sua alta vulnerabilidade deve-se ao seu modo de vida, de modo que todos os corais de água fria são extremamente frágeis e vulneráveis a perturbações físicas. Como estão atrelados a uma fauna e flora de alto valor econômico, eles não podem escapar de arrasto pesado ou de correntes marítimas cheias de poluentes ou de sedimentos que podem ser depositados, ocasionando o entupimento dos pólipos.
Há evidências de grandes impactos em corais frios através de atividades de pesca de arrasto, especialmente em altas latitudes, onde estes corais não estão tão profundos. Idealmente, até que se tenha melhor dimensão dos impactos, deve-se adotar o princípio da precaução e limitar a pesca em tais regiões. Afinal, no mundo todo a pesca de arrasto se mostra um fator de grande destruição de habitats, e quando voltada para  peixes de águas profundas pode ser ainda mais danosa.

A maior ameaça potencial aos recifes de águas profundas, contudo, é a mesma para os recifes tropicais: a acidificação dos oceanos. Apesar de ainda não terem sido feitos estudos voltados exclusivamente aos corais de águas frias, sabe-se que o limite de saturação do carbonato para águas mais profundas mudaria em até centenas de metros, gerando uma enorme perda de habitat para estes organismos.



Ilustração: Joana Ho.
Por fim, há necessidade de se aumentar rapidamente as pesquisas em corais frios, especialmente no Hemisfério Sul. Apesar das condições para tais estudos serem caras e desfavoráveis, a potencial importância destes habitats está cada vez mais clara no âmbito biológico, químico e geológico, reforçando a necessidade do rápido levantamento de mais informações precisas.


Referências Bibliográficas

Appeltans W, Bouchet P, Boxshall G. A, Fauchald K, Gordon D. P, et al., editors. (2011) World Register of Marine Species. Disponível em: http://www.marinespecies.org. Acesso em 29 de maio de 2016.
Cairns, S.D., 2011. Global diversity of the Stylasteridae (Cnidaria: Hydrozoa: Athecatae). PloS one, 6(7), p.e21670.
Freiwald, André, and J. Murray Roberts, eds. Cold-water corals and ecosystems. Springer Science & Business Media, 2006.
Freiwald, A.; Fosså, J. H.; Grehan, A.; Koslow, T.; Roberts, M.; Arrecifes de coral de agua fría - Fuera de la vista – pero ya no de la mente. Serie de Biodiversidad del Centro. Centro Mundial de Monitoreo de la Conservación del PNUMA. Reino Unido. 2004
NOAA Deep-sea Coral Data – World Map. Disponível em: https:/deepseacoraldata.noaa.gov/ website/AGSViewers/DeepSeaCorals/mapSites.htm. Acesso em: 28 de maio de 2016.
Roberts, J.M., Wheeler, A.J. and Freiwald, A., 2006. Reefs of the deep: the biology and geology of cold-water coral ecosystems. Science312(5773), pp.543-547.
Roberts, J.M., 2009. Cold-water corals: the biology and geology of deep-sea coral habitats. Cambridge University Press.
Rogers, A.D., 2004. The biology, ecology and vulnerability of deep-water coral reefs. IUCN.
Turley, C.M., Roberts, J.M. and Guinotte, J.M., 2007. Corals in deep-water: will the unseen hand of ocean acidification destroy cold-water ecosystems?.Coral reefs26(3), pp.445-448.
Roberts, J.M., Wicks, L. L. Lophelia.org. Disponível em http://www.lophelia.org/. Acesso em: 29 de maio de 2016.
Mortensen, P. B. and Buhl-Mortensen, L. (2004). Distribution of deep-water gorgonian corals in relation to benthic habitat features in the Northeast Channel (Atlantic Canada). Marine Biology, 144, 1223–1238.
WWF. (2004) Cold Water Corals Fragile havens in the Deep. WWF- World Wide Fund for Nature. pp 1-12

Sobre as autoras:
Beatriz Mattiuzzo, 22 anos, estudante de oceanografia desde 2013 e apaixonada pelo oceano desde sempre. Sou aventureira, mas com certeza minha maior Aventura  começou ao entrar no Instituto Oceanográfico da USP.  Atualmente, estudo cetáceos marinhos, com enfoque em bioacústica.

Samara da Cunha Oliveira, 22 anos, faço graduação no Instituto Oceanográfico. Minha preocupação com o meio ambiente veio desde que aprendi o ciclo do carbono na escola, assim encontrei o curso de Oceanografia e me encantei. Estou iniciando meus estudos no assunto de percepção ambiental.


Ágata Piffer Braga, 23 anos, estudante de oceanografia desde 2012 no Instituto oceanográfico da USP.  Minha grande paixão é a oceanografia física. Estou desenvolvendo meu trabalho de graduação no Laboratório de Dinâmica Oceânica, onde através de uma nova climatologia  procuro representar a Bifurcação de Santos (Circulação “profunda” da costa).