quinta-feira, 28 de julho de 2016

Como o derretimento das geleiras pode afetar os oceanos e o clima?


Por Juliana Marini Marson


Ilustração: Joana Ho.

Hoje em dia, nós ouvimos falar o tempo todo sobre mudanças climáticas. Embora o foco das manchetes seja o aumento da temperatura do ar, todo o sistema climático – atmosfera, oceano, criosfera, vegetação e superfície terrestre – está sendo afetado, já que suas componentes estão ligadas por complexas interações. Por exemplo, como resultado do atual aquecimento na atmosfera, inúmeras geleiras estão derretendo de forma acelerada. E, como resultado, um grande volume de água doce que estava armazenado sobre o continente entra no oceano. Além do subsequente aumento no nível do mar, uma das questões que surgem deste cenário é: como esta entrada de água doce no oceano pode afetar o clima? Esta foi uma das perguntas que motivaram minha tese de doutorado. 


Os oceanos, assim como a atmosfera, estão em constante movimento. Além da energia dos ventos e das marés, uma importante força que gera movimentos no oceano é a diferença de densidade entre massas de água. Observe o experimento no vídeo abaixo. Num tanque cheio de água com temperatura ambiente foi colocado um cubo de gelo (azul) e uma garrafinha aberta contendo água quente (vermelha). Fica claro como o azul se espalha pelo fundo do tanque enquanto o vermelho fica próximo à superfície. Portanto, podemos dizer que águas frias são mais “pesadas” (mais densas) que águas quentes.



video



Além da temperatura, a salinidade também é importante para determinar a densidade no oceano. A salinidade pode diminuir com chuva, neve ou gelo continental entrando no oceano; e pode aumentar com evaporação ou formação de gelo marinho. “Espera,” – você deve estar pensando – “como assim? Primeiro você diz que o gelo diminui a salinidade, depois diz que ele deixa o mar mais salgado?”. Primeiro, vamos apontar uma diferença importante aqui. Gelo continental, aquele que forma geleiras, é doce; ele é formado sobre a terra através do acúmulo e compactação da neve, que nada mais é que chuva (água doce) congelada. Gelo marinho é o resultado do congelamento da água do mar. Embora ele seja levemente salgado, a maior parte do sal contido na água do mar é expelida quando ela congela. Portanto, o sal que estava naquela parcela de água congelada vai parar na água abaixo do gelo, fazendo com que ela se torne mais salgada. Porque as moléculas de sal são mais “pesadas” do que as moléculas de água, a mesma quantidade de água salgada é mais “pesada”do  que a de água sem sal (“doce”).


Assim, águas quentes e doces são "mais leves" do que águas frias e salgadas, por isso a primeira tende a ficar por cima da última. Nessa busca pela estabilidade (menos denso por cima, mais denso por baixo), o oceano "revolve" como uma esteira: as águas quentes tropicais são transportadas para altas latitudes onde perdem calor e recebem sal (pela formação de gelo marinho), desse modo tornam-se mais densas e afundam. Assim formam-se as massas de água profundas, que são originadas em pontos do Atlântico Norte (próximo à Groenlândia) e do entorno Antártico (especialmente no setor Atlântico). Essas massas de água profundas são exportadas do Atlântico para os outros oceanos e eventualmente voltam para a superfície, onde ganham calor e retornam para os pólos, recomeçando o ciclo. Essa circulação é conhecida como Célula de Revolvimento Meridional (CRM), que tem um papel fundamental na distribuição de calor pela Terra (Figura 1).


Desenho esquemático da Circulação de Revolvimento Meridional (modificado de http://noc.ac.uk/science-technology/climate-sea-level/rapid-watch/26-degrees-north )


Por isso, como muitas geleiras próximas aos pontos de formação de águas profundas estão perdendo massa rapidamente, a água de degelo (doce) que vai para o oceano torna a superfície menos salgada e diminui a densidade das águas nessas regiões-chave, o que pode afetar a quantidade de água profunda formada. Se pouca água densa é formada nas altas latitudes, a CRM enfraquece e, consequentemente, a distribuição de calor pela Terra é afetada: o calor recebido nos trópicos não é eficientemente transportado para os pólos, o que faz com que regiões em altas e médias latitudes (Europa, por exemplo) passem a experimentar temperaturas mais baixas. Por isso é importante estudarmos o impacto da água de degelo na circulação oceânica. Mas como podemos fazer isso?


Mudanças climáticas sempre ocorreram no planeta. A variabilidade em parâmetros astronômicos, tais como a inclinação do eixo da Terra e a excentricidade orbital, a quantidade de gelo cobrindo a Terra, a variação nos tipos de vegetação, a concentração de gases estufa na atmosfera (de origem natural) são alguns dos fatores que fazem o clima da Terra mudar em longas escalas de tempo. Portanto, podemos usar as mudanças climáticas passadas para entender e tentar prever as respostas naturais do planeta a estas mudanças.


Há 21.000 anos, período conhecido como Último Máximo Glacial, a América do Norte e parte da Europa estavam cobertas por grandes mantos de gelo. A temperatura média da Terra era de aproximadamente 4°C (comparados aos 14°C médios de hoje). A partir daí, devido a um aumento na insolação recebida na Terra, a última glaciação chegou ao fim e esses mantos começaram a derreter. Desde lá até hoje, toda essa água de degelo causou um aumento de aproximadamente 120 m no nível do mar. Ou seja, MUITA água doce entrou no oceano. Portanto, este é um bom cenário para entender como a circulação oceânica responde à entrada de água de degelo.


Assim, o objetivo do meu trabalho foi diagnosticar as mudanças na circulação oceânica sob a influência da entrada de água doce proveniente do derretimento de gelo continental. Para atingir esse objetivo, usamos resultados de um modelo numérico (como aqueles usados na previsão do tempo) que simulou a variação do clima da Terra nos últimos 21 mil anos, gerados pelo cientista Feng He na Universidade de Wisconsin-Madison (EUA). Esse modelo engloba a atmosfera, o oceano, a superfície da terra, a cobertura de gelo e a cobertura vegetativa. Na simulação, Feng He informou ao modelo como e quando variaram os parâmetros astronômicos, a concentração de gases estufa, e também onde, quando e em que quantidade a água de degelo pode ter entrado no oceano. Tudo isso é estimado usando-se dados obtidos através da análise de registros geológicos (como por exemplo, bolhas de gases aprisionadas em camadas profundas de gelo na Antártica e na Groenlândia). É importante ressaltar que uma simulação numérica, por mais detalhada que seja, não é a representação exata do que aconteceu no passado. No entanto, simulações refletem leis físicas e condições conhecidas do passado – portanto não são, da mesma forma, “adivinhações ou “chutes”. Nesta simulação, em particular, a evolução da temperatura do ar assemelha-se bem àquela reconstruída à partir dos registros geológicos. Pode, assim, ser considerada uma boa aproximação do ocorrido.


Neste cenário numérico, nós observamos que a introdução de água de degelo no norte do Atlântico Norte realmente enfraquece a CRM. Esse enfraquecimento está associado à períodos frios no Hemisfério Norte. Contrariamente, quando a entrada de água doce era abruptamente interrompida, a CRM se intensificava e períodos de aquecimento eram observados. Além disso, as massas de água do Atlântico eram bem diferentes há 21.000 anos atrás. As águas formadas no entorno Antártico eram consideravelmente mais salgadas (possivelmente devido à maior formação de gelo marinho, incentivada pelas baixas temperaturas daquela época). Essas águas ocupavam boa parte do Atlântico. Em compensação, as águas formadas no Atlântico Norte não atingiam grandes profundidades como hoje, e nem eram transportadas tão longe ao sul: o núcleo da massa de água originada no Atlântico Norte chegava a 1000-2000 m de profundidade e ficava essencialmente contida no Hemisfério Norte, enquanto hoje ela atinge 3500-4000 m de profundidade e alcança latitudes próximas a 40°S (Figura 2).


Circulação de Revolvimento meridional vista na vertical (cortando o Oceano Atlântico no meio, no sentido Norte-Sul): esquema de como era há 21 mil anos atrás (painel superior) 
e como é hoje (painel inferior).

Os efeitos da entrada da água de degelo no Atlântico Norte também foram observados longe dali, no Oceano Índico tropical: a descarga de água de degelo está associada a mudanças na circulação atmosférica, o que leva a variações na intensidade das monções típicas da região.


Assim, nós concluímos que o derretimento de gelo continental provocado pelo aumento de temperatura do ar (e também do oceano em contato com as margens das geleiras) leva a mudanças na circulação oceânica e na distribuição das massas de água do Atlântico, o que eventualmente pode refletir na temperatura do ar, formando um ciclo. De fato, Rahmstorf e colaboradores publicaram um artigo na revista Nature Climate Change mostrando um enfraquecimento na CRM no século 20, especialmente após 1970. Eles apontam o derretimento acelerado do manto de gelo da Groenlândia como um dos responsáveis por esse enfraquecimento. (É importante salientar que essas relações de causa-e-efeito no sistema climático são muito complexas e estão longe de ser dadas como definitivas. Muitas relações ainda não são claras, e o que podemos fazer é inferir estas relações da maneira mais lógica de acordo com o que os dados nos mostram.


Informações mais detalhadas sobre esse estudo pode ser encontradas em:


Marson, J.M., Wainer, I., Mata, M.M., and Liu, Z. (2014). The impacts of deglacial meltwater forcing on the South Atlantic Ocean deep circulation since the Last Glacial Maximum. Climate of the Past, 10(5), 1723-1734. http://www.clim-past.net/10/1723/2014/


Marson, J.M., Mysak, L.A., Mata, M.M., and Wainer, I. Evolution of the deep Atlantic water masses since the Last Glacial Maximum based on a transient run of NCAR-CCSM3. Climate Dynamics, DOI: 10.1007/s00382-015-2876-7. http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00382-015-2876-7


Stefan Rahmstorf, Jason E. Box, Georg Feulner, Michael E. Mann, Alexander Robinson, Scott Rutherford & Erik J. Schaffernicht, 2015. Exceptional twentieth-century slowdown in Atlantic Ocean overturning circulation. Nature Climate Change, DOI: 10.1038/NCLIMATE2554). Link para o artigo:



Sobre Juliana Marini Marson:

Nascida numa cidade pequena, longe do litoral, apaixonei-me pelas ciências do mar aos 12 anos, após participar de um curso intensivo sobre os oceanos e conservação ambiental. Graduei-me como Bacharel em Oceanologia e Mestre em Oceanografia Física pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), e obtive meu título de Doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Meu foco sempre foi estudar a física dos oceanos polares e suas interações com o clima. Durante minha formação, a Antártica foi minha região de estudo principal. Atualmente, sou Pós-Doutoranda na Universidade de Alberta (Canadá), onde passei a conhecer mais a fundo o oceano do outro lado do mundo – o Ártico.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Minicursos CBO

Ei, você aí que vai participar do Congresso Brasileiro de Oceanografia (cbo2016.org) em Salvador, já se inscreveu em algum minicurso? Para facilitar sua vida, segue aqui a lista de minicursos disponíveis. 

Uma de nossas editoras (Catarina) estará no evento, como instrutora do minicurso MC5, sobre análise de imagens do plâncton. 

MC1 – Marcadores orgânicos aplicados ao estudo das mudanças climáticas e da poluição marinha
MC2 – Geoquímica de Manguezais   
MC3 – Computação científica com Python    
MC4 – Introdução à alimentação de praias arenosas           
MC5 – Aplicações da análise de imagens do plâncton em estudos ecológicos       
MC6 – Coleção didática e cientifica sobre lixo marinho
MC7 – Protocolos para monitoramento dos manguezais
MC8 – Mapeamento de Habitats Marinhos: Conceitos, Técnicas e Aplicações
MC9 – Genômica de sistemas marinhos no contexto das mudanças globais
MC10 – Radioatividade natural aplicada a estudos oceanográficos
MC11 – Ocean Data View para iniciantes
MC12 – Educação Ambiental no Ambiente Costeiro 
MC13 – A pesquisa, avaliação e manejo dos recursos pesqueiros marinhos do Brasil
MC14 – Uso de Métodos Geofísicos no Estudo de Testemunhos Marinhos
MC15 – Introdução à investigação sísmica de ambiente submersos rasos 
MC16 – Oceanografia por Satélites
MC17 – Mamíferos Marinhos e a Interação com as Atividades Pesqueiras: pesquisa e conservação
MC18 – Bioindicadores e biomarcadores de poluição marinha e alterações climáticas
MC19 – Reconstituindo a temperatura e a salinidade do oceano para períodos anteriores aos registros instrumentais: Por que e como fazer?           
MC20 – Os Recifes de Coral – o que são e como estão?

Mais informações no site do evento (http://www.cbo2016.org/mini-cursos/).


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Empreendedoras ao Mar!

Por Adriana Lippi

Talvez o termo empreender esteja mais em voga agora do que antes, talvez eu esteja mais atenta a ele recentemente. Quando se pensa em empreendedores e empresários o que te vem à cabeça? Um cara ricaço dono de várias empresas (Richard Brandson - Virgin)? Um cara que manja muito de tecnologia e cria coisas inovadoras (Steve Jobs - Apple)? Um cara desonesto que faz lobby com metade dos políticos para conseguir se dar melhor?
Ilustração: Joana Ho.
Sinto que existem ares de prestígio para empreendedores, como se fossem pessoas meio fora do padrão e que fazem algo extraordinário. Bom, alguns são, mas talvez haja mais empreendedores do que você pensa. O que tem em comum a dona da barraca de café da manhã, a moça da cesta de trufas que as vende na universidade no intervalo das aulas e a amiga que vende artesanatos que ela mesmo faz (ou não)? Elas também são empreendedoras!
É capaz de você se deparar até com mais mulheres empreendedoras no seu círculo social do que com homens empreendedores. O estudo do SEBRAE de 2015 indica que 49% dos empreendedores brasileiros são mulheres. Os motivos para as mulheres começarem um negócio próprio podem ser dos mais variados:

E por aí vai! O empreendedorismo não é a solução para todos os problemas, afinal, se todos forem empreendedores quem vai trabalhar nas empresas já existentes? Todos os tipos de atuação tem seu valor nesse universo econômico e social.
Existem muitas teorias sobre o estado atual da economia global: haverá uma migração do capitalismo para outra forma de economia? Talvez, só o tempo dirá, mas cada vez mais pessoas querem desenvolver negócios inovadores e a internet está aí para conectar essas pessoas e divulgar para todos essas novas possibilidades. Estamos em uma crise global. Não só econômica, mas política, de representatividade, política, de gênero, de identidade, de classes, etc… E talvez os novos empreendimentos não sirvam só para gerar renda, mas talvez para ajudar o mundo a se reencontrar. Já pensou como você pode ser peça importante seja para sua família e/ou comunidade? Já pensou em algo que possa mudar o mundo?
Ok, ok, mas o que isso tudo de empreendedorismo pode ter a ver com os mares e os oceanos?
Existe um conceito recente chamado de “Economia Azul”, que seria uma evolução da “Economia Verde”. Vou tentar explicar bem simplificadamente: A Economia Verde busca reduzir impactos, se importa com a questão socioambiental buscando igualdade e inclusão social e uso eficiente dos recursos. Já a Economia Azul tem duas vertentes. Uma delas é a definição de Economia Azul por Gunter Pauli. Em seu livro ele diz que a Economia Azul deve buscar inspiração na natureza e seus processos além de valorizar as pessoas do local, tendo como alguns princípios: não existe lixo (tudo é aproveitável), os processos são não-lineares (ou seja, não existe um “fim”, um produto ou resíduo de um processo sempre pode ser o início de outro processo, podendo retornar de forma cíclica), um processo gera muitos benefícios, entre outros. A definição de Economia Azul feita na Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável de 2012) seria a aplicação da Economia Verde para regiões costeiras.
Não sou especialista em empreendimentos de Economia Verde ou Azul, mas vou tentar dar alguns exemplos pra ilustrar:
Como exemplos da Economia Verde, voltada para os oceanos, tem a Ocean Drop, uma empresa bem nova formado por oceanógrafos, que utiliza microalgas encontradas nos oceanos para criar suplementos nutricionais. Há também a Eco-Reef, que comercializa animais para aquários marinhos que são reproduzidos em cativeiro, ou seja, protegendo os ecossistemas já existentes de perderem espécies para atividades de aquarismo, como aconteceu com o peixe-palhaço após o filme da Disney “Procurando Nemo”, cuja a captura aumentou muito e levou ao colapso algumas populações da espécie.
Quanto a Economia Azul, eu não consegui levantar exemplos atuais de empresas que atuem no oceano, mas há alguns anos atrás o Prof. Jorge Costa da FURG estudava como utilizar o CO2 gerado por termoelétricas para produzir a microalga Spirulina para suplementação nutricional, dessa forma o “resíduo” da termoelétrica serviria para outro processo (produção de microalga). Como um exemplo não ligado aos oceanos, temos uma vinícola sul-africana que utiliza patos que fazem a função de adubagem pela fezes que eliminam e controle de pragas como caracóis, parasitas e outros insetos. Dessa forma produzem as uvas sem necessidade de uso intenso de agrotóxicos, fertilizante, pesticidas, etc… e os patos acabaram se tornando uma atração turística.
Acredito que seja possível combinar as duas visões de Economia Azul (aplicar o conceito de Pauli para regiões costeiras), mas precisamos de empreendedoras e empreendedores dispostos a criar esses negócios. E ai, alguém se habilita?
Extras:
Leia também outros textos da Adriana.
Sobre Adriana:
Oceanógrafa, programadora web, viciada em ler, aprender e questionar, com mania de controle de tarefas, equipes e finanças de projetos, diretora do Instituto Costa Brasilis. Me apaixonei pelas diatomáceas ainda no colégio, achava que passaria o resto da minha vida trabalhando com esses minúsculos e quase invisíveis seres, mas não podia ignorar as coisas visíveis do meu dia-a-dia que achava importante realizar. Participei da A.A.A Oceanográfica, do Centro Acadêmico Panthalassa, encabecei O Escafandro (periódico feito pelos alunos da graduação do IOUSP), participei da organização de eventos científicos (SNO2010, SBO2011, Oceanos & Sociedade 2013, ISBS2015), fui gerente de Tecnologia de Informação e Comunicação na SALT e agora to tentando descobrir como viver no mundo das ONG’s, mas com saudades das minhas diatomáceas!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Semana Temática de Oceanografia


Vem aí a XI Semana Temática de Oceanografia "Potencialidades das Cências Marinhas". Evento organizado por alunos do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, onde ocorrerão diversas palestras e mini-cursos.


Não Percam!

Data: 22 a 26 de agosto de 2016
Local: Praça do Oceanográfico, 191 - Cidade Universitária, São Paulo - SP.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Os pequenos peixes escondidos nas poças de maré

Por Marina Brenha-Nunes

Essa história começa na Baía do Araçá, que é uma planície de maré situada em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Essa planície permanece quase inteiramente descoberta durante a maré baixa, mas na maré alta abriga um elevado número de peixes e raias, que adentram a planície para se alimentar e se reproduzir. Por estar ao lado do Porto de São Sebastião, que poderá ser expandido para a área da baía, ela tem sido estudada por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, a fim de servir de modelo para outros locais que necessitam desenvolver um plano de manejo e desenvolvimento local.

Quando se trabalha com peixes costeiros é muito comum que façamos a coleta deles durante a maré alta (maré cheia), principalmente por dois motivos: o primeiro é que na maré alta ocorre a maior quantidade de peixes próximos à costa; o segundo é que existem muitas técnicas de coleta para capturar o maior número possível de peixes em um determinado local, como por exemplo, a rede de arrasto, utilizando um barco a motor, e a rede picaré, que faz outro tipo de arrasto, manual, realizado na praia (veja mais sobre peixes e praias aqui).

Em uma tarde de trabalho intenso de coletas de peixes durante a maré alta na Baía do Araçá, a professora Dra. Carmen Rossi-Wongtschowski (minha orientadora), quem observava e supervisionava tudo, reparou que, quando a maré começava a baixar, alguns corpos d’água permaneciam isolados, desconectados do mar, na praia de fundo areno-lodoso. Ela observou também que havia muitos peixes vivendo ali nesses corpos, e que as amostragens realizadas na maré alta não estavam capturando aqueles animais, que também pertenciam ao Araçá, local de todo estudo que estávamos fazendo.

Conversa vai e conversa vem… decidimos que o meu projeto de mestrado seria estudar os peixes que habitavam esses corpos d’água na Baía do Araçá.

Na verdade, já existem estudos com peixes que habitam esses corpos d’água, que são chamados de poças de maré. Porém, percebemos que no Araçá existiam dois tipos de poças de maré, as arenosas e as rochosas. Observando essa diferença, começamos a suspeitar que esse fato poderia trazer variação nas espécies que viviam nos dois tipos de poça e na sua quantidade. E foi isso que fizemos… identificar quais e quantas espécies estavam presentes em cada tipo de poça.

Poça arenosa - Exemplo de uma poça arenosa utilizada na coleta de peixes na Baía do Araçá.


Poça rochosa -  Exemplo de uma poça rochosa utilizada na coleta de peixes na Baía do Araçá.

Pesquisando na literatura sobre os peixes que habitavam diferentes tipos de poças de maré, encontramos que havia basicamente estudos em poças rochosas, ou seja, não existiam trabalhos em poças arenosas. E isso foi outro fato que nos chamou atenção!...Como assim não estudam todos os tipos de poças que existem??

Pois bem, além de identificarmos dois tipos de poças em um mesmo local, não existia bibliografia que nos “iluminasse” quanto à coleta de peixes em poças arenosas. Assim, lá fomos nós! Desenvolvemos um protocolo/roteiro para a coleta dos peixes em poças arenosas que devesse atender a alguns requisitos básicos: (1) ser reproduzido para poças arenosas encontradas em qualquer lugar do planeta; (2) ser relativamente de baixo custo, principalmente para que pesquisadores de países em desenvolvimento (como o Brasil) conseguissem replicar o procedimento sem grandes problemas financeiros; (3) tinha que ser uma coleta rápida, pois a poça de maré deixa de ser uma poça a partir do momento que ela se conecta com o resto do oceano com a elevação do nível da maré, e isso leva em média de 3 a 4 horas. Dessa forma, com o intuito de contribuir para o projeto que estava sendo desenvolvido na Baía do Araçá, que era identificar o maior número de peixes de diversos tamanhos que viviam no Araçá, construímos uma rede com a tela de mosquiteiro (igual à de barrar mosquito), só que adaptada para pegar peixes!!!

Picaré com tela mosquiteiro - Utilização da picaré construída com tela de mosquiteiro em uma poça arenosa na Baía do Araçá.

Apesar das poças arenosas serem mais trabalhosas para coleta em campo em relação às rochosas, devido principalmente ao seu enorme tamanho e o curto tempo de trabalho disponível, conseguimos chegar a um nível de 89% de eficiência de captura com o procedimento desenvolvido! Ou seja, se em uma poça arenosa tivesse 100 peixes vivendo ali, conseguiríamos capturar 89 deles. E isso é ótimo, pois mostra que o nosso protocolo foi eficiente e pode ser replicado por outros pesquisadores, e até mesmo aprimorado!!

Em relação às espécies encontradas, identificamos algumas espécies diferentes entre os dois tipos de poça. Por exemplo, nas arenosas capturamos muitos indivíduos do peixe-rei (Atherinella brasiliensis), carapeba (espécies do gênero Eucinostomus sp.), o amboré claro (Ctenogobius boleosoma – que habita locais de fundo claro), o ubarana (Elops saurus). Já nas rochosas, capturamos basicamente espécies que possuem adaptações para tolerar as condições de uma poça de maré, como altas temperaturas e salinidade, diminuição no nível de água e oxigênio, foi o caso do amboré escuro (Bathygobius soporator – que habita locais de fundo mais escuro e se entoca em frestas das rochas) e um tipo de maria-da-toca (Scartella cristata, que também se entoca em frestas). Tão diferentes a ponto de nem serem consideradas pelos especialistas adaptadas à vida nas poças de maré!


Peixes coletados nas poças rochosas, amboré escuro (Bathygobius soporator) e a maria-da-toca (Scartella cristata).




Peixes coletados em poças arenosas, carapeba (espécies do gênero Eucinostomus sp.), ubarana (Elops saurus).








Vocês devem estar se perguntando: “Como assim? Mas então, como elas estavam lá?”




A grande diferença é que geralmente encontramos espécies de peixes típicas de poças de maré rochosas desde fases juvenis até a fase adulta, como foi o caso do amboré escuro e da maria-da-toca, mas nas poças arenosas encontramos muitas larvas (fase inicial do desenvolvimento dos peixes - saiba mais sobre larvas de peixes aqui) ou somente indivíduos juvenis de espécies que costumamos encontrar basicamente na maré alta, como é o caso do peixe-rei e da carapeba. Isso significa que se alguém considerava que, por ventura, esses dois tipos de poças poderiam abrigar as mesmas espécies de peixes, basicamente as que tinham sido descritas em poças rochosas, houve um grande engano. A diferença no número de espécies e na quantidade de peixes capturados entre elas é bem marcante e traz uma questão ecológica atrelada importantíssima para a conservação de ambientes costeiros, mostrando que precisamos conhecer todos eles antes de propor medidas únicas para todos os tipos de ambiente.

Poças de maré sempre foram habitats ecologicamente importantes para diversas espécies que participam e equilibram a cadeia alimentar costeira, além disso, podem interagir com espécies de peixes recifais e servir de isca para os pescadores. Colocando em pauta outros tipos de poças de maré, com algumas funções distintas daquelas já conhecidas, entendemos que as poças também podem vir a desempenhar um papel de abrigo para as larvas, fugindo de alguns predadores e aproveitando para se alimentar com maior “tranquilidade”. Muitas das larvas encontradas foram de espécies que são capturadas pelos pescadores na fase adulta durante a maré alta para o comércio ou seu consumo próprio. Mas, se degradarmos esses ambientes, onde essas larvas irão se abrigar?

Além de pensar no futuro dessas larvas, devemos pensar também que junto com uma construção portuária, vem atrelada uma questão de invasão de espécies que não são nativas da região. Também detectamos esse cenário no Araçá, uma vez que capturamos duas espécies exóticas (não nativas da região), o Omobranchus punctatus (muzzled blenny) e o Butis koilomatodon (mud sleeper) também conhecido como barrigudo ou dorminhoco, em poças arenosas e que são potenciais competidores das nossas espécies nativas. Além da degradação, o ambiente pode ser dominado por essas espécies, que desequilibram o ambiente e os ciclos de vidas das demais espécies.

Como ambientalista, é necessário conhecer, proteger e conservar áreas costeiras para que possamos ter um retorno produtivo para as nossas vidas e para nossas futuras gerações, pensando no equilíbrio ecológico natural do sistema, para continuarmos colhendo bons frutos da natureza.


Sobre Marina Brenha-Nunes
Bióloga, graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, SP). Desde a escola já queria seguir a vida de bióloga marinha, começando com uma vontade louca de participar do Instituto Baleia Jubarte, depois do TAMAR e fui trabalhar com peixes a partir de um estágio voluntário no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) em 2011. Trabalhei diretamente com morfologia de otólitos (ossos do ouvido interno dos peixes ósseos), passando por diversas consultorias ambientais e estudos de meio com escolas privadas. Depois disso, ingressei no mestrado do IO-USP e finalizei-o em maio de 2016 sobre os peixes em poças de maré e atualmente resolvi me dedicar à educação básica como professora de Ensino Médio na rede estadual.

Referências:
BRENHA-NUNES, M. R. (2016). Ictiofauna em poças de maré arenosas e rochosas e seus fatores estruturadores em uma planície de maré subtropical. Dissertação de mestrado. Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 79.
BRENHA-NUNES, M. R.; CONTENTE, R. F.; ROSSI-WONGTSCHOWSKI, C. L. D. B. (2016). A protocol for measuring spatial variables in soft-sediment tide pools. Zoologia 33(2), 1-4. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-46702016000204000>
CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2015). Occurrence of the non-indigenous Omobranchus punctatus (Blenniidade) on the São Paulo coast, South-Eastern Brazil. Marine Biodiversity Records 8(e73), 1-4. Disponível em: <http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=9707340&fileId=S175526721500055X>

CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2016). A new record of the non-native fish species Butis koilomatodon (Bleeker 1849) for southeastern Brazil. Biotemas 29(2). Disponível em:<https://periodicos.ufsc.br/index.php/biotemas/article/view/2175-7925.2016v29n2p113/31676>