sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Tartarugas marinhas e a pesca nos oceanos

Por Melissa Marcon
As tartarugas marinhas apresentam-se distribuídas globalmente e podem ser encontradas em mares tropicais e subtropicais de todos os oceanos (MÁRQUEZ, 1990). Das sete espécies de tartarugas marinhas existentes no planeta, cinco utilizam a costa brasileira para alimentação e reprodução (MARCOVALDI & MARCOVALDI 1999).



Figura 1. Cinco espécies de tartarugas marinhas que podem ser encontradas na costa brasileira. A) Tartaruga cabeçuda; B) Tartaruga verde; C) Tartaruga de couro; D) Tartaruga de pente e Tartaruga oliva. (Fonte: http://www.ufrgs.br/ceclimar/ceram/fauna-marinha-e-costeira/tartarugas-marinhas).

As causas da redução na população das tartarugas marinhas estão ligadas direta ou indiretamente à destruição do ambiente pela ação antrópica nas praias de desova (como iluminação, circulação de carros, entre outros), predação dos ninhos, interação com a pesca, e poluição (SPOTILA et al., 2000; BUGONI et. al., 2001; TOMÁS et al., 2001; BARROS et al., 2010). Além disso, a interação das tartarugas marinhas com as artes de pesca é um dos fatores de mortalidade e injúria de indivíduos jovens e adultos em todo o mundo (LUTICAVAGE et al., 1997; PINEDO & POLACHECK, 2004; KOTAS et al., 2004; DOMINGO et al., 2006; GARDNER et al., 2008).

Em minha dissertação de mestrado eu avaliei a interação de tartarugas marinhas de couro (Dermochelys coriacea) e cabeçuda (Caretta caretta) com a pesca de espinhel pelágico na região Sudeste/Sul do Brasil. Meu objetivo principal com esse estudo foi quantificar os padrões de distribuição das capturas acidentais dessas espécies de tartarugas marinhas e correlacioná-los com variáveis ambientais (oceanográficas), biológicas e operacionais, esperando contribuir com a formulação de estratégias de conservação e manejo de pesca que beneficiem a manutenção do ecossistema pesqueiro.

Estimativas da captura incidental dessas tartarugas pelo espinhel pelágico têm gerado preocupação em relação às taxas de mortalidade por pesca, e ao baixo potencial de recuperação dessas populações no Oceano Atlântico. Para entender de forma simples um pouco mais sobre esta arte de pesca acesse: http://www.icmbio.gov.br/cepsul/images/stories/artes_de_pesca/industrial/espinhel/espinhel_superficie_fundo.pdf.

Figura 2. Pesca com espinhel pelágico de superfície. Distribuição dos petrechos de pesca. (Fonte: www.oceanica.ufrj.br)

O monitoramento das capturas acidentais, juntamente com o registro dos respectivos dados abióticos e operacionais da pesca, muitas vezes obtidos por observadores de bordo em frotas comerciais, deve ser considerado como uma rica fonte de informação, pois permite melhorar a compreensão do comportamento das populações de tartarugas marinhas, bem como apreciar a importância das variações ambientais sobre a dinâmica das populações.


Em meu estudo pude identificar que a tartaruga cabeçuda foi capturada acidentalmente em maior número que a tartaruga de couro, assim como observado por outros autores. O fato de a maior parte dos indivíduos de tartaruga cabeçuda haver sido fisgado pela boca, é congruente com o fato da espécie se alimentar de peixes, logo esta espécie alimenta-se da isca do espinhel. Já a tartaruga de couro, em sua maioria, foi encontrada com o anzol externamente ao corpo, o que está relacionado com sua alimentação, já que a espécie se alimenta de plâncton gelatinoso.

Figura 3. Tartaruga cabeçuda capturada acidentalmente fisgada pelo bico (esquerda) e tartaruga de couro encontrada emaranhada ao espinhel (direita). Fonte: Venancio Guedes de Azevedo. 

Observei também que em relação a sazonalidade, ou seja, estação do ano, as tartarugas foram capturadas em maior número no outono. É possível que nessa estação ocorra algum fenômeno oceanográfico que favoreça a maior abundância relativa de tartarugas. Desse modo, o pico de capturas acidentais encontrado duranto o outono,  pode estar relacionado à migração das mesmas para essa região mais costeira, possivelmente para alimentação, onde, consequentemente, uma maior vulnerabilidade ao espinhel possa ocorrer durante essa estação.

As capturas acidentais da tartaruga cabeçuda analisadas no meu mestrado foi significativamente maior quando lulas foram usadas ​​como isca em operações de pesca, demostrando assim, a preferencia por este tipo de isca por esta espécie. Cabe destacar que observações feitas anteriormente por outros autores havendo encontrado  reduções na captura da tartaruga cabeçuda usando, inclusive, a cavalinha (Scomber scombrus) como isca, assim como autilização do anzol circular para dimunuir os danos da captura acidental. A alimentação oportunista da tartaruga cabeçuda em sua fase juvenil oceânica torna a espécie muito suscetível à captura incidental em espinhel pelágico.

Leia mais sobre métodos para se reduzir a captura acidental de tartarugas marinhas em operações de pesca neste link: http://www.fao.org/docrep/012/i0725e/i0725e.pdf.

De modo geral, pude identificar padrões de comportamento, como preferência de localidade e tipo de isca, assim como o tipo de anzol e a época do ano em que as tartarugas marinhas destas espécies são capturadas em maior número.

É importante salientar que os dados dependentes da pesca se mostraram muito úteis, podendo ser, às vezes, a única fonte de informação para a análise dos padrões de comportamento migratório, localização e habitat preferido das tartarugas marinhas em diversas partes do mundo. Pode parecer paradoxal que a própria atividade impactante seja a que nos permite conhecer, com mais detalhes, as populações impactadas. Mas esses dados de capturas acessórias ou acidentais, são de fato cada vez mais completos e permitem uma melhor identificação dos potenciais impactos que essas populações sofrem.

Nesse sentido, com base nos resultados do meu mestrado, podem ser propostas diversas iniciativas e medidas visando contribuir com a conservação das espécies de tartaruga marinha estudadas e com o manejo da atividade pesqueira.

A vida nos oceanos não é nada fácil para as nossas belas gigantes marinhas, sendo assim, todos os esforços para conhecê-las e protegê-las, assim como o ambiente que frequentam, é extremamente válido e gratificante.

Sobre Melissa Marcon:

Médica veterinária formada pela Faculdade de Jaguariúna (2009). Apaixonada pelo mar e seus habitantes finalizei meu mestrado em Oceanografia Biológica pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo em 2013. Atuo na área clínica médica e cirúrgica de pequenos animais e animais silvestres. Possuo experiência na área de coleta de material biológico, monitoramento de praia, necropsia, resgate e reabilitação de animais marinhos, em especial, quelônios marinhos.

Melissa já publicou outro post com a gente, acesse este link e confira: http://batepapocomnetuno.blogspot.com.br/2015/06/uma-veterinaria-as-tartarugas-marinhas.html

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Mergulho para a vida na escuridão: uma pesquisa nas profundezas do mar

Por Camila Negrão Signori 

Originalmente publicado em: InForMar 25,  http://maradentro.org.br/informar/category/2
  
Estar em uma expedição científica a bordo do navio de pesquisa norte-americano Atlantis com a presença do submersível Alvin (sob responsabilidade do Woods Hole Oceanographic Institution, prestigiado instituto oceanográfico da costa leste), foi por si só uma experiência bastante diferente e enriquecedora, mesmo estando acostumada a participar de embarques de pesquisa. Já embarquei algumas vezes na plataforma continental e talude do litoral sul e sudeste brasileiro, atravessei o Oceano Atlântico Sul - desde a África até o Brasil, e também naveguei três vezes em águas do Oceano Austral, no entorno da Península Antártica. 


Foto 1: Alvin sendo preparado para a descida, com os dois mergulhadores no topo e um bote no mar para oferecer apoio. (Foto de Camila).

Essa experiência só foi possível pelo convite que tive do Dr. Stefan Sievert, meu supervisor de Doutorado Sanduíche (quando desenvolvi parte de minha pesquisa de Doutorado com amostras polares, no Woods Hole, financiada pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior), com quem mantenho a parceria após o Doutorado. Stefan foi o coordenador científico desse embarque, com o Projeto financiado pela agência norte-americana NSF (National Science Foundation) “Estudo integrado: energia metabólica, fixação do carbono, e mecanismos de colonização em comunidades microbianas quimiossintéticas nas fontes hidrotermais profundas”. Minha função foi ajudar Stefan e Jesse McNichol (meu amigo e doutorando do Programa MIT-WHOI, cuja tese está diretamente relacionada a esse projeto) em todas as tarefas a bordo.

As razões de tanta diferença para os demais embarques foram várias. Foi minha primeira vez em águas do Oceano Pacífico. Foi meu primeiro embarque em um navio administrado por um instituto de pesquisa, e com tripulação bastante reduzida, com cerca de 25 pessoas incluindo a tripulação do Alvin (os demais navios em que estive sempre foram administrados pela Marinha do Brasil, com tripulação de cerca de 50-60 pessoas). Foi um embarque internacional, com 23 pesquisadores de diferentes partes do mundo, incluindo Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Itália, Espanha, Japão, China, e eu do Brasil.

As diferenças não param por aí. Ao invés de navegarmos para distintas estações oceanográficas (com diferentes latitudes e longitudes, a fim de explorarmos espacialmente os estudos de Oceanografia Física, Química, Biológica e Geológica), nós permanecemos na mesma área amostral (9°Norte) por quase um mês. Nossa paisagem – um oceano sem fim, distante cerca de 4-5 dias de navegação de qualquer terra firme – foi muito parecida ao longo desses dias. Afinal, os objetivos do projeto estavam todos relacionados com o oceano profundo, nas fontes hidrotermais. 


Foto 2: Camila Negrão Signori observando a vida no oceano profundo através de uma das cinco escotilhas do Alvin. (Foto de Stefan Sievert).


Ao invés das tradicionais garrafas de Niskin – normalmente acopladas ao sistema CTD-Rosette, que nos permite coletar águas de diferentes profundidades, selecionadas de acordo com as diferentes massas d’água - para este embarque, nós utilizamos o famoso submersível Alvin, com mergulhos diários a mais de 2500 m de profundidade. Com o auxílio de dois braços robóticos capazes de manipular instrumentos, e uma “cesta biológica” capaz de carregar mais de 180 kg de material do fundo, tornou-se possível coletar nossas amostras, como fluidos provenientes das fontes hidrotermais, microrganismos associados às fontes, invertebrados anelídeos e colonizadores.

Para as análises químicas e microbiológicas das amostras, ao invés de usarmos a água coletada pelas garrafas de Niskin ao chegar a bordo do navio, nós utilizamos os fluidos coletados por equipamentos especiais, chamados de “IGTs” (Isobaric Gas Tight samplers, ou amostradores isobáricos de gás comprimido), que foram desenvolvidos pelo instituto Woods Hole e mantêm a pressão e condições ambientais das fontes profundas. 


Foto 3: Um amostrador “IGT” coletando, com o auxílio do braço robótico, fluidos (de 25°C) das fontes hidrotermais a 2500 m de profundidade, no local “Crab Spa”. Nesta foto podem-se observar os caranguejos, os moluscos bivalves, os anelídeos e os tapetes microbianos (Foto de Camila, ©WHOI).


Trabalhar no laboratório do navio com as amostras não foi uma tarefa trivial, não por causa do balanço do mar (pois, apesar de estar prevista a passagem de um furacão perto da nossa área, o mar esteve calmo durante todo o embarque), mas sim para a retirada dos fluidos a partir dos “IGTs”. Precisávamos ter todo o cuidado para a altíssima pressão, ao abrir e fechar o sistema, trabalhando com ferramentas (cujos nomes nem sei em Português), e muitas vezes de noite e de madrugada (depois do retorno do Alvin a bordo). Era muita engenhoca para retirarmos 150 mL de líquido hidrotermal para depois seguirmos os tradicionais protocolos de laboratório, para diferentes objetivos, como a extração de DNA dos microrganismos, medição de gases (como hidrogênio e sulfeto), medições do processo de quimiossíntese, contagem e cultivo de microrganismos, fora outros experimentos de incubações, utilizando diferentes temperaturas e adição de nutrientes.

Ter a chance de mergulhar tão profundo era um de meus sonhos (quase impossíveis) como oceanógrafa, que se tornou realidade em 14 de novembro de 2014. 

Logo que o Alvin foi lançado na água através do guincho do Atlantis e suspenso por um gigantesco e robusto cabo, sentimos um leve balanço nas águas superficiais do Pacífico. E após a última checagem dos dois mergulhadores que descem junto ao topo do submersível, e um breve adeus e desejo de “boa sorte” acenado pelas escotilhas, nós começamos a travessia para o mar profundo. 

Os primeiros 100 m de coluna d’água eram de cor turquesa belíssima, e logo após os 300 m de profundidade, tudo se tornou completamente escuro e calmo. Ao passarmos a Zona de Mínimo de Oxigênio (de 300 até cerca de 800 m, local na coluna de água onde a concentração de oxigênio é mínima, devido principalmente ao processo de respiração), organismos bioluminescentes apareceram flutuando em contraste com a água negra. Após uma hora e meia de descida muito suave (como se eu estivesse sentada no sofá da sala!), o piloto Phil Forte – tão sereno quanto a nossa descida – ascendeu os holofotes de LED do Alvin e um novo mundo surgiu sob meus olhos.


Foto 4: Fonte hidrotermal com as fumarolas negras em plena atividade, no fundo do mar, a 2514 m de profundidade, observadas pela escotilha do Alvin. (Foto de Camila, ©WHOI).

Nós aterrissamos sobre a crosta oceânica – que constitui o fundo dos oceanos, de cerca de 200 milhões de anos – onde a rocha basáltica escura, por vezes, se mostrou mais brilhante, indicando uma formação mais recente de uma área tipicamente mais ativa. E assim, com o auxílio do GPS, começamos a explorar a área de estudo para que as metas do mergulho fossem cumpridas em 6 horas, para depois retornarmos em mais uma hora e meia de subida até a superfície.

Pelos trabalhos científicos, imagens e vídeos na Internet e relatos de quem já mergulhara nestas fontes hidrotermais do Pacífico, eu já esperava encontrar bastante vida. Mas, no fundo, a gente sempre fica com aquela pulguinha atrás da orelha...será que essas pessoas realmente viram tudo aquilo mesmo?

E sim! Vimos a vida abundante no oceano profundo: muitos caranguejos pequenos e brancos (justificando o nome dessa região “Crab Spa”); diversos invertebrados anelídeos (Tube warms) da espécie Riftia pachyptila, que podem chegar a quase 2 m de altura e possuem uma cor avermelhada nas pontas, caracterizando a presença de um complexo de hemoglobinas adaptadas à presença de sulfetos, tóxicos para nós humanos; peixes albinos e cegos nadando pela área, medindo cerca de 30 cm de comprimento, e caracterizados pela ausência de escamas e por se assemelharem às enguias (por isso chamados de Eelpout). Vimos ainda moluscos bivalves amarelados, pequenos camarões e lagostas nos arredores das fontes, além dos famosos tapetes microbianos. 


Foto 5: Dr. Stefan Sievert (à esquerda), piloto Phil Forte (no centro), e Camila Negrão Signori (à direita) na esfera do Alvin, em uma breve pausa para a foto, durante o mergulho a 2514 m de profundidade. (Foto de Camila).


Mas, confesso que, mesmo sendo uma pesquisadora da Oceanografia Microbiana, o que mais me impressionou, foi a estrutura geológica, que parecia artisticamente esculpida, cercada pelas fumarolas negras (rica em sulfetos metálicos). Foi simplesmente impressionante “pisar” na crosta oceânica, onde a Terra se formou, e vivenciar as fontes em plena atividade.

Como eu me senti depois desse mergulho? Bem, além de muito maravilhada com tanta vida e beleza, com toda a tecnologia para a exploração de uma das fronteiras do conhecimento, e muito abençoada com a oportunidade de estar embarcada com pessoas muito competentes das mais diferentes nacionalidades... eu me senti muito pequena. Tão pequena quanto uma gota de água no vasto oceano, ou uma minúscula célula microbiana brilhando no microscópio! Ainda temos muito o que aprender sobre os mistérios do mar.


Foto 6: Grupo de cientistas embarcados no convés do Atlantis, em frente à garagem do Alvin. (Foto de Camila).


Mergulho 4769: uma experiência que eu jamais vou esquecer! Às vezes, quando me pego pensando sobre esse mergulho, custa-me acreditar que um dia eu estive lá. Sou extremamente grata ao Dr. Stefan Sievert, que confiou em meu trabalho, e me deu essa chance de embarcar e aprender muito a bordo do Atlantis e do Alvin. Também agradeço a todos os colegas cientistas, e à competente tripulação, por compartilharem essa experiência comigo e por todos os esforços e duro trabalho para conseguirmos desbravar a vida na escuridão.


*Para maiores informações, confira também os links:

O blog da expedição "Dark Life" para as fontes hidrotermais da Elevação Leste do Pacífico (East Pacific Rise, a 9°N) ainda está no ar: http://web.whoi.edu/darklife/
Sobre o Woods Hole Oceanographic Institution: http://www.whoi.edu/
Sobre minha trajetória na pesquisa: http://agenciasn.com.br/arquivos/3010



Sobre Camila Negrão Signori:
Oceanógrafa, mestre em Ciências Biológicas/Zoologia e Doutora em Ciências/Microbiologia, com períodos de idas e vindas do Woods Hole Oceanographic Institution (EUA). Nascida em Campinas (interior de São Paulo), mas se encantou pelo mar desde pequena ao conhecer a Enseada de Ubatuba. Nas horas vagas, adora praticar esportes e dançar, sempre cercada de família, namorado e amigos maravilhosos. Hoje é Pós Doutoranda do Instituto Oceanográfico (USP) e integrante do Laboratório de Ecologia Microbiana, onde pesquisa os efeitos das mudanças climáticas nas comunidades microbianas do Oceano Austral. Contato: camisignori@hotmail.com