terça-feira, 30 de junho de 2015

Até os peixes amam praia

Por Jana M. del Favero

As praias podem parecer um ambiente sem vida, pois o que enxergamos facilmente é apenas a areia e o mar. Então, se prestarmos um pouco mais de atenção, lembramos dos caranguejos, dos tatuís, das bolachas da praia e nossa opinião começa a mudar. Daí vamos para um mergulho e, às vezes, mesmo estando bem no raso é possível avistar alguns peixes. A quantidade de peixe avistada é mínima se compararmos com o que é visto ao nadar perto de um recife de coral ou perto de um costão rochoso. Mesmo sem ter uma fenda na rocha, um buraco no coral ou uma raiz do manguezal para protegê-los, é possível notar alguns peixinhos “brigando” com aquele vai e vem das ondas.

E foi exatamente esse grupo de peixes que resolvi estudar durante o meu mestrado, os peixes da zona rasa de ambientes de praias. O principal objetivo do trabalho foi analisar a influência das  variáveis ambientais (diferentes praias, marés, estações do ano, salinidade e temperatura) na composição e estruturação da ictiofauna (= fauna de peixes) de ambientes praiais. Para obter os dados do meu projeto, coletei, com a ajuda dos técnicos da base de pesquisa do IO-USP localizada em Cananéia (SP), os peixes de três praias situadas na Ilha Comprida e três na Ilha do Cardoso, sul do estado de São Paulo (ou seja, tive a oportunidade de viajar durante um ano para um cantinho especial, como dito no post “Internacionalizar é preciso”). Essas praias tinham diferentes graus de exposição em relação às águas do estuário (para definição de estuário clique aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Estuário): duas mais voltadas para o interior do estuário, onde quase não se observavam ondas e havia influência das águas estuarinas, duas intermediárias e duas expostas, com ondas maiores e mais fortes e sem influência das águas estuarinas. Para essa coleta utilizamos uma rede chamada de “picaré”, que é arrastada manualmente por duas pessoas, uma em cada ponta.


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Foto 1: Coletando com a rede “picaré” em uma praia “exposta” e em uma “abrigada” da Ilha Comprida (SP).

No total foram amostradas 57 espécies de peixes, a maioria em sua fase juvenil, com principal variação de tamanho de 0.4 a 6 cm. Foram também amostradas algumas larvas (ver post A vida "dura" de um peixe marinho bebê). Quanto mais protegida a praia, maior a quantidade de indivíduos amostrados e maior o número de espécies. Por outro lado, as praias mais expostas apresentaram alta dominância de poucas espécies, principalmente de pampos (gênero Trachinotus) e de tainhas e paratis (gênero Mugil).


Foto 2: Trachinotus carolinus (Pampo) do lado esquerdo e Mugil curema (Parati) do lado direito. As fotos superiores mostram os peixes jovens, enquanto as fotos inferiores mostram os indivíduos adultos (fonte das fotos inferiores: www. fishbase.org).

Os peixes utilizam a área estudada por diferentes motivos: alguns utilizam como área para o crescimento, (apesar da falta de “esconderijos” como citado no começo do texto, o simples fato da área ser  rasa já impede que predadores de maior tamanho venham se alimentar, oferecendo proteção aos pequenos), outros como uma rota de migração entre o oceano e o estuário, e apenas uma espécie, o Peixe- rei (Atherinella brasiliensis) pode ser classificada como residente, ou seja, o peixe passa todas as fases de seu desenvolvimento (larvas, jovens e adultos) naquela mesma região ao longo do ano. 


Foto 3. Menticirrhus littoralis, exemplo de uma espécie que utilizou a área estudada para o crescimento (até mesmo o maior indivíduo da foto ainda era jovem).

Um peixe da Califórnia, EUA, que pertence à mesma família do nosso Peixe -rei (família Atherinopsidae), utiliza a praia de uma maneira bastante diferente: eles saem completamente da água para desovar na areia. O mais interessante é que eles saem aos milhares, então a praia fica cheia de peixes “dançando”. Vale a pena ver o vídeo: 



Outro fato interessante é que a maior quantidade de peixe e a maior diversidade é obtida durante o verão, estação na qual também ocorrem os maiores impactos nas praias por causa do turismo, como o aumento de lixo!

Se interessou pelo assunto? Minha dissertação pode ser obtida no seguinte link:
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/21/21131/tde-27072011-151520/en.php


Boa praia a todos!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Uma veterinária, as tartarugas marinhas, e a oceanografia


Pela convidada Melissa Marcon

Fui convidada para fazer esse post e falar a respeito do meu mestrado. Eu não vou necessariamente falar sobre a minha dissertação (Quem sabe em outro post?), mas sim como eu, uma veterinária formada em uma faculdade no interior de São Paulo, fui parar no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. 

Vou voltar muitos anos atrás para contar bem esta história. Desde que me conheço por gente, sempre quis ser veterinária. Eu não fui o tipo de criança que brincava com Barbies, eu tinha fazendas de minhocas e vivia colando band aids nos meus cachorros. Mas claro, eu era iniciante! 

Bom, para o alívio dos meus animais de estimação, eu entrei na faculdade de veterinária aos 17 anos. Durante a faculdade fiz diversos estágios e em diferentes áreas da medicina veterinária, porém, um estágio realizado no Projeto TAMAR em Ubatuba, foi decisivo para eu escolher a área que seguiria depois de formada. Neste estágio tive a oportunidade de conhecer melhor o Projeto, assim como suas ações direcionadas à conservação das tartarugas marinhas. O ponto chave foi ter permanecido na reabilitação e quarentena. Lá recebíamos animais encalhados nas praias vivos ou mortos e também os animais que interagiam com a pesca artesanal local. Tive a oportunidade de realizar diversos procedimentos veterinários, assim como, cuidar do manejo alimentar e limpeza dos tanques dos animais internados. 


Foto: Melissa Marcon.

Após esse estágio e mais alguns que se seguiram, eu estava decidida a seguir na área e trabalhar com reabilitação de animais marinhos, assim como no desenvolvimento de pesquisa visando à produção de conhecimento para a conservação. 

Para saber como conseguiria me inserir no mercado de trabalho realizei diversas pesquisas e conversei com profissionais da área. Decidi então fazer um mestrado em oceanografia. Entrei em contato com alguns professores do Instituto Oceanográfico para saber quais passos deveria seguir e principalmente qual deles poderia me orientar. 

No começo eu estava muito empolgada e decidida, mas com o início do processo seletivo eu me questionei! Como uma veterinária conseguiria passar em uma prova de conhecimentos gerais de oceanografia? E o inglês? Bom, foram longos quatro meses de muito estudo. Livros e mais livros. E claro, nunca poderia deixar de mencionar as pessoas maravilhosas que encontrei dentro do Instituto Oceanográfico da USP que me ofereceram diariamente apoio, paciência e muito conhecimento.

Foi então que em fevereiro de 2011 eu finalmente fui aprovada em todos os processos seletivos e poderia dar início ao meu tão sonhado mestrado em oceanografia biológica. O tema? Claro, as tartarugas marinhas! Por meio de uma parceria estabelecida com o Projeto TAMAR eu tive acesso aos dados da pesca de espinhel pelágico nas regiões sudeste e sul do Brasil e desenvolvi minha dissertação neste tema. 

A interação das tartarugas marinhas com a pesca, seja ela artesanal ou comercial, é um dos fatores que mais causa a mortalidade destes animais. Estudos vêm crescendo com o intuito de quantificar esta interação, bem como os fatores que influenciam a mesma. Para isso, é necessária uma ênfase particular no conhecimento ecológico sobre as populações, a relação entre sua distribuição e as feições oceanográficas (principalmente parâmetros biológicos e físico-químicos da coluna de água), sua biologia populacional e análises quantitativas da interação das tartarugas marinhas com as artes de pesca. Enfim, minha dissertação foi ganhando formato e eu fui compreendendo cada vez mais a importância deste tipo de estudo. 


Foto: Melissa Marcon.

Meu principal foco durante a dissertação foi buscar quais fatores operacionais da frota comercial (tipo de isca, profundidade de operação das embarcações, tipo de anzol, etc) e ambientais (características oceanográficas) influenciavam a captura acidental de tartarugas marinhas por essa arte de pesca. Com o conhecimento destas características poderíamos desenvolver trabalhos propondo manejos e adequações para as frotas pesqueiras para diminuir a captura acidental de tartarugas marinhas, e consequentemente, o óbito e diminuição das populações.

Foram meses de muito aprendizado. Não foi fácil! Eu não estava tecnicamente preparada para o meio científico. Analise estatística, softwares estatísticos, assim como tabelas do Excel, tiraram o meu sono e em troca me deram uma gastrite. A leitura de artigos, parte fundamental de uma pesquisa, inicialmente foi um desafio. Como eu poderia compreender metodologias em outros idiomas sem ao menos dominá-las no meu idioma? Mais uma vez, noites em claro e muito estudo foram fundamentais. 

Muitas vezes eu me perguntei se estava no caminho certo. Lembro-me de não apenas uma vez, mas diversas vezes ouvir perguntas como: Por que uma veterinária está no Instituto Oceanográfico? Por que você não foi fazer mestrado na veterinária?

Mas a resposta foi aparecendo ao longo da jornada. Hoje me sinto muito satisfeita e competente com o conhecimento de oceanografia que adquiri ao longo do meu mestrado. Como não poderia? A interdisciplinaridade é fundamental para que se construa um bom trabalho em qualquer área. Nada melhor para um médico veterinário do que conhecer intimamente o ambiente e os processos ocorridos para uma espécie estudada. 

Com o final do mestrado as oportunidades apareceram. Fui trabalhar em um Projeto de monitoramento de tartarugas marinhas. Meu trabalho consistia em realizar um levantamento de dados sobre as tartarugas marinhas, inédito para a área estudada. 

Realizávamos resgate e reabilitação das tartarugas e trabalho de campo. O campo se dava por campanhas de mergulho mensais, nos quais, coletávamos dados biológicos (espécie, peso e tamanho, por exemplo) das tartarugas marinhas capturadas intencionalmente, um exame clínico geral era realizado, assim como, uma amostra de sangue era coletada. Os exames hematológicos nos ajudaram a conhecer o estado de saúde dos animais da região, como também, a definir padrões hematológicos locais das tartarugas marinhas.

Apesar de me sentir um peixe fora d’água durante certo tempo, hoje, depois de realizar trabalhos com animais marinhos, sejam eles de reabilitação, assim como produção de conhecimento através de pesquisa, estou certa de que o envolvimento entre veterinária, oceanografia, biologia e, porque não matemática, se completam, fazendo do trabalho interdisciplinar o mais adequado para a conservação de qualquer espécie.

Hoje, muito feliz e apaixonada pelas escolhas que fiz e todo o conhecimento adquirido durante a caminhada, continuo trabalhando com pesquisa e lógico, pensando no meu doutorado que logo se seguirá.


Sobre Melissa Marcon:


Médica veterinária formada pela Faculdade de Jaguariúna (2009). Apaixonada pelo mar e seus habitantes finalizei meu mestrado em Oceanografia Biológica pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo em 2013. Atuo na área clínica médica e cirúrgica de pequenos animais e animais silvestres. Possuo experiência na área de coleta de material biológico, monitoramento de praia, necropsia, resgate e reabilitação de animais marinhos, em especial, quelônios marinhos.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Fundação Estudar e o portal Na Prática realizarão conferência de carreiras

  

Google, Facebook, Ambev e outras empresas buscam talentos em Conferência de Carreiras da Fundação Estudar e Na Prática. Os interessados devem se inscrever  para conseguir uma das 500 vagas disponíveis. 
Para mais informações acesse a matéria original (http://www.estudar.org.br/carreirasene/).
A Conferência Ene será realizada dia 3 de agosto, das 7h30 às 17h, no Hotel Unique, em São Paulo. As inscrições são até 28 de junho e podem ser feitas pelo site: http://www.napratica.org.br/ene.


terça-feira, 16 de junho de 2015

Pequenas águas-vivas e o segredo para a vida eterna

Pelo convidado Renato Nagata

No verão de 1988, Christian Sommer, um estudante alemão de biologia marinha com pouco mais de vinte anos de idade, e sua namorada passavam o verão na pequena cidade de Rapallo, na Riviera Italiana. Christian também conduzia alguns estudos sobre pequenas águas-vivas (ou medusas). Ele mergulhava no oceano azul turquesa, entre os desfiladeiros de Portofino à procura desses animais, revirando o fundo do mar e também passando redes com malhas muito finas, para coletar medusas que são quase imperceptíveis durante o mergulho. Entre as diferentes espécies, Christian encontrou uma diminuta água-viva da espécie Turritopsis dohrnii, de cor púrpura, que possui de 15 a 30 tentáculos e alguns poucos milímetros de tamanho. Após alguns dias de observações, Christian esqueceu de suas pequenas medusas e ao invés delas morrerem elas definharam e se transformaram em um estágio mais jovem. Ao melhor investigar esse fenômeno, Christian e outros cientistas italianos de Gênova perceberam que, ao contrário de outras águas-vivas que normalmente cresciam e se desenvolviam em adultos, Turritopsis parecia se desenvolver semelhante ao “Curioso Caso de Benjamin Button”, do filme de 2008, baseado no livro de F. Scott Fitzgerald (1921), em que o personagem vai ficando mais novo ao longo dos anos. Alguns anos mais tarde, Christian juntamente com esses cientistas, publicaram um estudo demostrando a capacidade da espécie para se desenvolver em duas direções, tanto normalmente crescendo e envelhecendo, como também regredindo para estágios mais jovens, contrário ao que seria o sentido usual de desenvolvimento (Bavestrello et al. 1992). Essa regressão para estágios mais jovens pode ser seguida por uma retomada ao crescimento normal e tal capacidade tornaria Turritopsis dohrnii uma espécie potencialmente imortal (Piraino et al. 1996). 



Figura 1: Ciclo de vida “normal” de águas-vivas e a variação chamada de “desenvolvimento reverso”. Exemplos de espécies que podem realizar o desenvolvimento reverso apenas em medusas jovens (vermelho): A – Nausithoe aurea. B - Hydractinia carnea C- Laodicea undulata. Fotos: Ciclo de vida, modificado de Boero et al. 2008, (B) retirado de Schmich et al. 2007 e (C) retirado de Vito et al. 2006. Escalas (B): 0.2 mm e (C) 1 mm.

Como qualquer outro animal, a maioria das cerca de 1000 espécies conhecidas de águas-vivas cruzam um caminho natural da vida. Elas crescem nadando livremente ao sabor das correntes do mar, se alimentam de outros animais do plâncton (Leia mais aqui), se desenvolvem ao longo de uma série de estágios, até se tornarem adultos sexualmente maduros. Então elas se reproduzem (por sinal, possuem óvulos e espermatozóides muito semelhantes aos nossos!) e após isso, morrem e se desintegram. Essa reprodução gera uma pequena larva chamada plânula, que desce até o fundo do oceano e se transforma em uma criatura com formato de tubo e tentáculos ao redor da boca, chamada de pólipo (Figura 1). Os pólipos crescem presos ao fundo do mar e podem se dividir formando grandes colônias com muitos pólipos clones, assim sendo de DNA idêntico. Depois de um tempo, os pólipos individuais (ou colônias de pólipos, dependendo da espécie) produzem novas medusas que crescerão, fechando assim o “ciclo de vida” dessas espécies. O problema é que entre as águas-vivas, a exceção parece ser a regra e a diversidade de padrões de ciclo de vida é a maior em todo o reino animal. Um desses caminhos alternativos é a capacidade de desenvolvimento ao contrário, chamada de “desenvolvimento reverso” ou “ontogenia reversa”, que ocorre em algumas poucas espécies de águas-vivas (mas é possível que ocorra em muitas outras). A medusa, geralmente ainda jovem, para de comer, seus tentáculos se retraem e ela vai para o fundo do oceano e dentro de algumas horas se transforma em uma pequena massa de tecido. Essa massa de tecido pode ficar por muito tempo “descansando” e mais tarde pode se transformar novamente em um pólipo, que retoma o ciclo usual de desenvolvimento. O grande diferencial de Turritopsis dorhnii, no entanto, é sua capacidade de realizar essa reversão, mesmo depois de adulta e em qualquer fase de sua vida (Piraino et al. 1996; 2004). A reversão depois do desenvolvimento adulto e pleno seria como se uma borboleta adulta ao invés de morrer, pudesse voltar e se transformar em seu estágio de lagarta.

Mas onde estaria o segredo dessa espécie que permite essa potencial imortalidade? No caso de Turritopsis, cientistas observaram que várias condições estressantes, como a falta de alimento, temperaturas muito baixas, ou a destruição mecânica da medusa, podem desencadear o desenvolvimento reverso. Essas alterações ativam certos grupos de genes, que provocam mudanças na organização das células. Todos os animais possuem as famosas “células tronco” (ou células pluripotentes), que se diferenciam em diversas outras células especializadas, por exemplo células musculares, neurônios e outros tecidos. No entanto, Turritopsis dohrnii possui células que podem realizar o caminho inverso, ou seja, células já especializadas podem voltar ao estágio não-diferenciado (de célula-tronco), ou ainda transformar-se diretamente em outros tipos de célula. E esse é o segredo de Turritopsis! Tal capacidade de transformação das células é chamado de “trans-diferenciação celular” e permite que essa medusa reorganize as células especializadas de seu corpo, perdendo as células “desnecessárias” e revertendo seu crescimento. Se uma única medusa conseguir realizar essa reversão indefinidamente, isso a tornaria potencialmente imortal. No entanto, nenhuma medusa foi seguida por muito tempo e também ainda não possuímos meios de medir a idade das águas-vivas da natureza e saber quantas vezes é possível realizar essa reversão. Apenas o cientista japonês Shin Kubota, da Universidade de Kyoto conseguiu acompanhar Turritopsis dorhnii por 2 anos, quando observou esse ciclo de crescimento e reversão ocorrendo 10 vezes seguidas (Kubota 2011). 

Fígura 2: Desenvolvimento reverso em Turritopsis dohrnii (a) Medusa saudável. (b) Medusa se transformando - boca à direita e os músculos à esquerda, corada com marcadores Brdu (verde) mostram locais de multiplicação das células. (c) Estágio “massa de tecido” também corada. (d) A “massa de tecido” começa a se expandir, ainda com restos do tecido da medusa (setas brancas) e produz um estolão típico do estágio de pólipo (seta preta). (e) Um novo pólipo se forma após o desenvolvimento reverso de uma medusa (dentro de 36–48 h à 24 °C). Escalas: (a) 1 mm; (b) 500 μm; (c) 300 μm; (d e e) 500 μm. Retirado de Piraino et al. 2004.

A imortalidade pode ser na verdade indesejável, como na mitologia grega em que alguns deuses amaldiçoam mortais que os enganaram, com a eternidade. Ou no livro “Intermitências da morte” de J. Saramago de (2005), onde a Morte suspende seus trabalhos, condenando humanos a viverem para sempre. Se a imortalidade dessa água-viva ocorresse de fato na natureza, em pouco tempo o oceano estaria cheio dessa espécie, o que causaria uma grande calamidade. Porém, felizmente, a ontogenia reversa não impede que o destino dessas medusas seja o de se tornar comida de peixes, tartarugas, ou de qualquer outro animal marinho. Além disso, como qualquer outro ser vivo, Turritopsis não é imune a doenças, de forma que existem meios de interromper a vida da espécie. 

O desenvolvimento reverso é uma estratégia de sobrevivência: se a espécie encontra um ambiente pouco favorável, mecanismos internos a fazem voltar para um estágio anterior. Ou seja, se “o mar não está pra peixe”, a medusa interrompe seu crescimento, volta para o fundo do mar e começa tudo novamente. Outras espécies de medusa e mesmos os pólipos também podem se transformar em massas de tecido protegidas por uma cápsula e assim ficar por até alguns anos, esperando condições melhores para seu desenvolvimento. Mesmo assim, a capacidade de trans-diferenciação celular em Turritopsis dorhnii pode representar um grande passo para a compreensão de muitos outros mecanismos celulares de envelhecimento, de regeneração de tecidos e até de rejuvenescimento no reino animal. E quem sabe um dia, revelar alguns segredos sobre a imortalidade (veja o link do Youtube – Google Zeitgeist: Dr. Shin Kubota e a água-viva imortal.

Sobre Renato Nagata:
Assim como muitas outras pessoas, sempre tive uma atração pelo mar, um ambiente estranho e pouco familiar para alguém nascido e criado no interior do Paraná. Quando cursava ciências biológicas na UFPR, surgiu a oportunidade de um estágio para estudar águas-vivas. Não podia imaginar que estava mergulhando em um vasto universo com diversas possibilidades. Além de bonitas (notem as imagens que decoram este blog!), percebi que as águas-vivas (ou medusas) eram muito abundantes nas águas escuras do litoral do Paraná. Com isso, começaram a surgir inúmeras perguntas: quando elas ocorrem? Onde ocorrem? O que elas causam ao homem e aos demais componentes do ecossistema? Fiz mestrado em zoologia na UFPR e depois me mudei para São Paulo, onde conclui recentemente o doutorado na USP, também em zoologia. Atualmente tenho interesse por questões sobre as águas-vivas que só podem ser investigadas quando olhamos medusas vivas e pulsantes: Como é o crescimento e o desenvolvimento desses animais? Como as espécies realizam funções básicas como nadar e obter alimento? Além da pesquisa, também sinto a necessidade de compartilhar um pouco do que faço. Por isso, aceitei imediatamente o chamado de Netuno, para contar alguns “causos” e trazer à tona curiosidades sobre esses fascinantes habitantes dos mares!

Leitura sugerida:
Bavestrello, G., Sommer, C., and Sarà, M. (1992) Bi-directional conversion in Turritopsis nutricula (Hydrozoa). In Aspects of hydrozoan biology. Edited by J. Bouillon, F. Boero, F. Cicogna, J.M. Gili, and R.G. Hughes. Scientia Marina 56: 137–140.
Kubota S. (2011). Repeating rejuvenation in Turritopsis, an immortal hydrozoan (Cnidaria, Hydrozoa). Biogeography 13: 101–103.
Piraino, S., Boero, F., Aeschbach, B., and Schmid, V. (1996) Reversing the life cycle: medusae trasforming into polyps and cell transdifferentiation in Turritopsis nutricula (Cnidaria, Hydrozoa). Biological Bulletin 190: 302–312.
Piraino S, De Vito D, Schmich J, Bouillon J, Boero F (2004) Reverse development in Cnidaria. Canadian Journal of Zoology 82:1748–1754
Rich, N. Can a Jellyfish Unlock the Secret of Immortality? The Ney York Times, 28 de novembro de 2012. http://www.nytimes.com/2012/12/02/magazine/can-a-jellyfish-unlock-the-secret-of-immortality.html?_r=0 acessado em 30/05/2015.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pelo nosso imenso amor...... ao mar!!!!

Por Cássia Gôngora Goçalo 

Cássia e Newton, biólogos e amantes do mar. Trocamos nossos primeiros olhares em uma comemoração de defesa de mestrado que acontecia no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e, deste dia em diante, nos apaixonamos cada vez mais. Acreditem... foi amor à primeira vista!!!

A cada dia, mês e ano que passava o nosso relacionamento se tornava mais intenso e a necessidade de fazer as coisas do dia a dia juntos aumentava. Foi assim que conseguimos administrar nosso tempo como casal em casa e como equipe em laboratórios do IOUSP e em embarques científicos.


Cássia e Newton embarcados em barcos e navios de pesquisa.

Após anos de relacionamento ficamos noivos e o mar continuou a nos acompanhar. Mudamos para o litoral norte de São Paulo para desenvolver um projeto de pesquisa juntos e então tínhamos que fazer coletas mensais, sendo a equipe praticamente nós dois, daí nos tornamos cada vez mais um só. 

Conseguimos conciliar o trabalho, o lazer e o lar. A parceria em ter uma pessoa de confiança te apoiando e auxiliando nas atividades em laboratório ou em campo fazia a nossa relação se fortalecer mais. Poder viajar e participar de congressos também era um ponto forte a nosso favor, assim como o auxílio nas correções de trabalhos e elaboração de pôsteres.


Cássia e Newton apresentando pôsteres em congressos.

Montamos um micro laboratório em casa, onde conseguimos analisar amostras e ensinar um ao outro os nossos conhecimentos, eu de ictioplâncton e Newton de zooplâncton marinho. Essa parceria nos rendeu diversos trabalhos de consultoria ambiental juntos, pois o conhecimento e os trabalhos se completavam.

Cássia e Newton trabalhado com as amostras de organismos marinhos.

A minha mãe sempre dizia a todos: “a Cássia só poderá casar com um biólogo, para poder compreendê-la na sua dedicação à ciência”. Na mosca... praga de mãe pega kkkkk... e assim se sucedeu, eu e Newton resolvemos casar e celebrar nossa união, junto à quem???? Ao mar... só poderia ser o MAR. Nos casamos em Ubatuba - SP, sendo a cerimônia e a festa realizadas na praia, pé na areia. E claro, a lua de mel não poderia ser longe “dele”!


Cássia e Newton no casamento em Ubatuba e Lua de Mel em Punta Cana.

Mas toda essa experiência que vivemos foi fundamental para que eu pudesse concluir meu doutorado, com dedicação de 24 horas à tese, uma fase muito intensa para quem está na elaboração do trabalho e mais intensa para as mulheres, que precisam deixar de lado algumas tarefas de casa, o marido, o cachorro e até mesmo as festas de família... Não é NADA fácil... O apoio do Newton e sua compreensão neste momento era o que me dava forças para continuar na frente do computador, lendo artigos e escrevendo os parágrafos (veja aqui sobre meu trabalho de doutorado).

Atualmente Newton está trabalhando offshore (embarcado em navios de apoio às plataformas de petróleo), desenvolvendo um projeto de monitoramento ambiental, o que exige que ele fique 14 dias embarcados e 14 dias em terra. Esse trabalho permitiu que vivêssemos uma nova fase do nosso relacionamento, pois acostumados a estar juntos em todos os períodos do dia, agora estamos ligados pelo coração em alto mar (e pelo WhatsApp kkkk ...).

Como todo relacionamento, também tivemos momentos de tempestades e calmarias, assim como no mar, mas aprendemos a lidar com as situações e a enfrentar as tempestades, para ser sincera tivemos mais momentos de boas pescarias!!!

Aprendemos que o RESPEITO é a base do relacionamento. A AMIZADE é a sustentação e viver intensamente a vida é o AMOR.

Dedico este post a todos os casais que se conheceram através do mar... e que esse gigante possa inspirar mais pessoas a se apaixonarem.

Feliz Dia dos Namorados!!!

terça-feira, 9 de junho de 2015

Um giro pelo oceano: entendendo o vai e vem das baleias-jubarte



Pela convidada Daniela Abras

É um desafio muito grande tentar entender os mecanismos que ocorrem no mega organismo de um animal de 15 metros de comprimento e 40 toneladas e que migra cerca de 9.000 km.

As baleias-jubarte migram todos os anos entre a Antártica (onde só se alimentam) e o Brasil (onde só se reproduzem). O percurso de cerca de 4.500 km é percorrido duas vezes ao ano, no caminho da Antártica para o Brasil, em que elas gastam em torno de 2 meses de ida, e mais dois meses de volta. E se somar o tempo que elas permanecem se reproduzindo no Brasil, que dura em torno de 4 meses, são 8 sem se alimentar. É um baita jejum. Para conseguirem essa façanha, elas precisam comer muito durante os 4 meses na Antártica, e fazer um grande estoque de energia, em forma de gordura corporal.

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Foto 1: Mapa do corredor migratório das baleias-jubarte entre a região de alimentação, na Antártica e a área de reprodução, no Banco de Abrolhos, sua principal área de reprodução. Mapa produzido por Arthur Güth.

E as baleias comem o quê? Como diria a adorável e esquecidinha Dory do filme procurando Nemo, baleias não comem peixe, comem krill. Um pequeno crustáceo, parente dos camarões, de cerca de 5 cm de comprimento, que vive e forma gigantescos cardumes. O krill é a base da teia alimentar na Antártica, em que praticamente todas as espécies dependem dele, direta ou indiretamente. Muitas espécies de peixes, focas, pinguins e baleias se alimentam exclusivamente dele. E outras, como as orcas e a foca-leopardo, se alimentam de peixes ou pinguins... Por isso, a teia alimentar da Antártica é apelidada carinhosamente, pelos cientistas, de “krill-dependente”.


Foto 2: O Krill (Euphausia superba), principal alimento das baleias-jubarte na Antártica, forma grandes cardumes.

Todos os anos então, as baleias-jubarte chegam à costa brasileira, e aqui permanecem entre julho e novembro. Mas tem ano que a população chega antes, e fica aqui mais tempo, e tem ano que elas chegam mais tarde e vão embora rapidinho. Alguns anos tem muito mais baleia do que  outros... E foi então que começaram a surgir as perguntas: Será que nos anos que as baleias passam mais tempo em Abrolhos, é porque elas se alimentaram melhor? Será que elas vão embora mais cedo nos anos em que a temperatura da água está mais alta? Ou será que nada disso tem influência, e é tudo uma questão de programação genética? O que será que dá o start para isso tudo acontecer?

A proposta do meu mestrado foi tentar compreender os diversos mecanismos ambientais que podem influenciar na dinâmica migratória das baleias-jubarte, especialmente a disponibilidade da sua principal fonte de energia. Para isso, analisei alguns parâmetros, entre eles: fotoperíodo, temperatura da água em Abrolhos e no Mar de Scotia (que é o lugar onde elas ficam na Antártica), e disponibilidade de krill no verão, e cruzei com dados de 7 anos de avistagem de baleia-jubarte ao redor do Arquipélago dos Abrolhos, em um local chamado de “ponto fixo”. Para avistar as baleias, utilizamos um equipamento de topografia, chamado teodolito, com zoom de 30 vezes. Assim, ao longo de 5 meses as observamos diariamente e vimos que a abundância da população flutua ao longo da temporada reprodutiva: um aumento gradual em julho, pico de avistagem em agosto/setembro, e diminuição gradual, até não ter mais baleias no fim de novembro. 




Foto 3: Avistando as baleias com auxílio do equipamento teodolito, no Arquipélago dos Abrolhos.








Os resultados foram mais que esperados. Nos anos com maior disponibilidade de krill, as baleias se alimentam melhor, maior é seu estoque de energia, o que possibilita que permaneçam mais tempo investindo na reprodução e mais baleias foram avistadas em Abrolhos. O contrário é válido: em anos com menos krill, vimos menos baleias e menor foi o tempo que elas ficaram por aqui. A temperatura da água não teve muita influência na migração, apenas auxiliou a indicar o momento de início da migração ou o timing migratório. 

Mas o resultado mais surpreendente foi em relação ao fotoperíodo (duração de luz no dia). Nunca, nenhum trabalho havia relacionado a dinâmica da migração com o fotoperíodo, talvez por que os cientistas considerassem óbvio demais. Mas, às vezes é indispensável compreender o óbvio. O fotoperíodo apresenta uma grande amplitude entre o verão (18 horas) e inverno na Antártica (6 horas); diferente de Abrolhos, em que a diferença entre o verão (13 horas) e inverno (11 horas) é bem menor. 

Então, como conclusão do meu trabalho, a migração das baleias-jubarte é iniciada e influenciada pela diminuição brusca do fotoperíodo quando elas estão na Antártica. Mas quando estão em Abrolhos, é a soma de 3 fatores: o fotoperíodo (que se altera bem menos em Abrolhos do que na Antártica), a temperatura da superfície do mar (que aumenta pouco, mas gradativamente ao longo da temporada reprodutiva) e a disponibilidade de krill, ou o quão bem ou mal a população se alimentou durante o verão. 

Foi muito difícil analisar um volume tão grande de dados, tentando interligar parâmetros ambientais tão diferentes para chegar próximo às respostas a todas aquelas perguntas. Com estes resultados, começamos a compreender a complexa dinâmica da migração e a importância do krill para a manutenção da população de baleia-jubarte que frequenta a costa brasileira. Se quiser saber mais sobre minha dissertação, entre em contato no email (daniabras@gmail.com).

A população de baleias-jubarte foi quase dizimada no início do século XX, devido à caça comercial intensiva, em que a população estimada era de 25.000 e chegou a cerca de 800 indivíduos no seu pior momento. Após a moratória da caça das baleias em 1986, a nossa população se recuperou, e hoje conta com 15.000 indivíduos!!! Este ano, foi oficialmente retirada da lista de espécies brasileiras ameaçadas de extinção. Esta é uma vitória para as baleias, e para nós, que temos o privilégio de recebê-las anualmente, cada vez em maior número, em seu magnífico balé aquático. Vá conhecê-las! Elas estão aqui entre julho e novembro em grande concentração na região dos Abrolhos, mas podem ser vistas do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro.

Quer saber mais sobre as baleias-jubarte? Visite o site do Instituto Baleia Jubarte www.baleiajubarte.org.br


Foto 4 – Baleia-jubarte saltando na região dos Abrolhos.


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Daniela Abras é mineira de Belo Horizonte, formada em biologia marinha pela UFRJ, e mestre em Oceanografia pela USP. É aficionada pelo cetáceos desde seus 8 anos, quando fez um trabalho na escola sobre o tema. Durante a adolescência, já dizia que queria trabalhar com baleias e muita gente não a levou a sério. No início dos anos 90, escutou o famoso vinil com a gravação das baleias cantando da revista da National Geographic e conheceu o movimento “Save the whales” e disso partiu sua maior obstinação: estudar e proteger as baleias. Hoje é pesquisadora do Instituto Baleia Jubarte, e se dedica diariamente ao estudo deste magnífico animal.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Bonitinho, mas... ordinário

Por Corey Eddy e Jana del Favero

Dois peixes-leão já foram avistados no Brasil, ambos na região de Arraial do Cabo (RJ), um primeiro em 2014 e o segundo agora recentemente, em março de 2015. Mas, se só foram dois exemplares, por que se preocupar? 


O peixe-leão!
Antes de continuar a leitura assistam o curto vídeo do programa Fantástico da rede Globo (acesse aqui), para maiores informações dos problemas que essa espécie, de origem do Indo-Pacífico, causa atualmente no Caribe e para que se tenha uma noção do quão rápido que ela se alastrou por lá.

Os especialistas brasileiros ainda estão debatendo como esses Peixes-leão foram parar em águas brasileiras e se há mais indivíduos em águas mais profundas, que não seriam observados por mergulhadores (detalhes aqui). Porém, enquanto não há um consenso, fui conversar com um colega da University of Massachusetts (EUA) que estuda a população invasora de Peixe-leão nas Bermudas, para saber o que está sendo feito por lá e que medidas poderiam ser adotadas no Brasil. Abaixo traduzo o que ele me contou:

Desde a descoberta do Peixe-leão na Flórida (EUA) em 1985, sua população expandiu rapidamente da Venezuela até Rhode Island (EUA). Pesquisadores acreditam que sua expansão pode eventualmente atingir até o Uruguai. E então, desde o ano passado, dois Peixes-leão já foram avistados no Brasil!


Esquema representativo da distribuição do peixe-leão ao redor do mundo. Diagramação por Naira Silva. Fontes: Ilustração peixe-leão (http://www.supercoloring.com/pt/desenhos-para-colorir/peixes).

Como em seu ambiente de origem, o Indo-Pacífico, os Peixes-leão são reconhecidos e evitados pelas suas presas, eles evoluíram para predadores oportunistas com dieta ampla (em outras palavras, comem de tudo o que tiver disponível). Porém, devido a ingenuidade de suas presas no ambiente invadido, os Peixes-leão são capazes de selecionar e consumir grandes quantidade de invertebrados, peixes juvenis e peixes adultos pequenos, muitos dos quais desempenham importantes papéis ecológicos e econômicos. Para se ter um ideia, os Peixes-leão podem reduzir as populações de peixes juvenis de um recife em quase 80% em menos de cinco semanas!

Além disso, amparado pela ausência de um predador verdadeiro, populações de Peixe-leão no Atlântico têm atingido densidades bem maiores do que no Pacífico, afetando a estrutura da comunidade, a biodiversidade e a saúde de recifes de coral. Felizmente, eles são deliciosos, e demora somente 1 minuto para remover os perigosos espinhos, tornando-os perfeitamente seguros para manusear. Se houver pesca de Peixe-leão, nós poderemos salvar o oceano. “We have to eat them to beat them” (Nós temos que comê-los para vencê-los).


Crédito - Jorge Sanchez.

Meu trabalho de doutorado é parte de um projeto financiado pelo “UK’s Department of Environment, Food and Rural Affairs” que está investigando características biológicas e ecológicas da população de Peixe-leão ao redor das Bermudas e o impacto que eles podem causar na estrutura e funcionamento do ecossistema recifal de lá. 

Para o meu primeiro capítulo eu vou utilizar dados de abundância e distribuição do Peixe-leão para estimar o tamanho populacional. Os peixes são coletados através de mergulhos em 15 locais e em 5 diferentes profundidades (10, 20, 30, 45 e 60 m) usando uma lança. Todos os indivíduos coletados são pesados, medidos, dissecados e processados para futuras análises. Depois de um ano, todos os locais são novamente observados para calcular a taxa de recolonização. Esses dados também irão facilitar o desenvolvimento de um mapa que auxiliará as atividades de remoção do Peixe-leão em locais-chave.

Nos próximos capítulos estudarei a história de vida dessa espécie para calcular o seu crescimento populacional. Para calcular crescimento e quanto tempo o Peixe-leão vive, utilizarei o otólito dos indivíduos capturados tanto durante a pesquisa, quanto por outros mergulhadores e pescadores (Não lembra o que é otólito? Clique aqui). Além disso, através das gônadas vou analisar os aspectos reprodutivos e estimar a fecundidade (quantos “ovos” são desovados por cada fêmea em média). 

Por fim, analisarei o estômago do Peixes-leão amostrados para saber o que eles estão comendo nas Bermudas, investigando os impactos que eles podem estar causando em peixes e invertebrados nativos e identificando fatores que podem influenciar a distribuição da população. 

Quando finalizado, meu doutorado irá ajudar o “Lionfish Task Force Bermuda” (http://www.lionfish.bm) e o Departamento de Proteção Ambiental local no desenvolvimento de um plano para a remoção a longo prazo desta espécie de águas locais. Controlar e reduzir o crescimento contínuo da população de Peixe-leão é uma parte crucial de qualquer esforço para minimizar os impactos negativos sobre as espécies de peixes nativas e os ecossistemas de recifes de coral, e evitar impactos secundários sobre a pesca e o turismo.

Além de minha pesquisa de doutorado, estou profundamente envolvido na educação pública e uma das minhas atividades pode ser uma ideia muito útil para o Brasil. Como voluntário para a “Ocean Support Foundation” (http://www.oceansupport.org), eu gerencio “Bermuda Lionfish Culling Program” (programa de abate do Peixe-leão). Este programa permite que qualquer residente das Bermudas, com mais de 16 anos de idade, possa receber a formação adequada e uma autorização especial para caçar Peixe-leão. Até o momento, temos certificadas mais de 500 caçadores, os quais são uma grande ajuda na remoção do Peixe-leão e na manutenção dos recifes. Como o Brasil foi invadido só recentemente, o momento inicial é perfeito para mobilizar mergulhadores, pescadores e ambientalistas para entrar na água e começar a caçada. Cada Peixe-leão que é removido ajuda muito para preservar e proteger o ambiente marinho do Brasil, especialmente quando ainda são poucos os Peixes-leão observados nas redondezas.

Sobre o convidado:
Crédito - Groundswell Bermuda.

Corey Eddy é doutorando na Universidade de Massachusetts Dartmouth (EUA). Ele fez a graduação na Universidade de Rhode Island (EUA), cujo programa levou-o para Bermudas por um semestre no “Bermuda Institute of Ocean Sciences”. Quando estava por lá passou a realizar as atividades descritas no texto. Os seus interesses concentram-se em estudar as características da história de vida, uso de habitat e ecologia alimentar de predadores ecologicamente importantes. 
Contato: corey.eddy@umassd.edu

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Estação ecológica de Tupinambás seleciona voluntários

Apoio em Pesquisa Científica – 3 vagas – Inscrições de 25 de maio a 5 de junho.

Monitoramento da Biodiversidade – 15 vagas – Inscrições de 25 de maio a 5 de junho.

Educação Ambiental – 1 vaga – Inscrições de 07 a 18 de setembro.

Acesse aqui e saiba mais. Contato para Inscrições: voluntariado.esectupinambas@icmbio.gov.br

Curso gratuito e a distância de oceanografia

Quer fazer um curso de oceanografia de graça, sem sair de casa? Tem um curso inteirinho sobre sistemas bentônicos no site da USP, ministrada pela professora Dra. Ana Maria Vanin, disponível para qualquer pessoa! Acesse o link e boas aulas (clique aqui).