quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os furacões e seus nomes

Por Carolina Barnez Gramcianinov


Ilustração: Silvia Gonsales

A temporada de ciclones tropicais no Atlântico começou dia 19 de abril e já temos um furacão para entrar na história. Irma foi devastador e provavelmente não teremos mais furacões com esse nome no Atlântico. Você sabe por quê? Já se perguntou de onde vem os nomes dados aos furacões e por que isso é feito?

Nomear os ciclones tropicais (ou furacões) com nomes próprios, simples e curtos facilita a comunicação e os alertas à população. Antigamente, códigos envolvendo a latitude e longitude eram usados, mas isso causava certa confusão pela quantidade de letras e números. Durante a temporada de furacões é comum ter mais de um sistema atuando no Atlântico ao mesmo tempo e é importante que o alerta seja entendido claramente para cada um deles.  A confusão entre furacões que ocorrem ao mesmo tempo e atuam em regiões diferentes ou em sequência era muito comum quando a notícia era passada, principalmente via rádio, o que atrasava e comprometia os alertas e planos de evacuação.


Animação com imagens de satélite do dia 14 de Setembro de 2017 do Oeste do Pacífico Norte, com os ciclones tropicais Talim (mais ao norte) e Doksuri (mais ao sul). Esta imagem em infravermelho colorido mostra as características das nuvens, e consequentemente, chuva, associada aos sistemas atmosféricos. Quanto mais fria é a nuvem, mais alta ela está e maior é o potencial de chuva forte. Na escala de cores adotada, nuvens mais altas são representadas pela cor vermelha. (fonte: http://www.ssd.noaa.gov/PS/TROP/Basin_WestPac.html, acessado em 14/09/2017).

A tradição de nomear furacões tem sua origem no Oceano Índico Oeste, onde as comunidades atingidas os nomeavam de acordo com o santo do dia. No início do século XIX, um meteorologista australiano passou a dar nomes femininos aos ciclones e essa prática foi adotada ao redor do mundo, especialmente por meteorologistas da Marinha e Exército durante a 2a Guerra Mundial. Apenas em 1978 nomes masculinos passaram a ser usados no leste do Pacífico Norte e, um ano depois, no Atlântico e Golfo do México.


Atualmente, os nomes são escolhidos a partir de listas organizadas pela Organização Mundial de Meteorologia (WMO, em inglês1). Existe uma série de listas para cada região oceânica afetada por ciclones tropicais, totalizando 10 grandes listas. Todas obedecem ordem alfabética, o que permite saber qual é o número do ciclone da estação. Em qualquer região, um ciclone tropical que começa com A é o primeiro da estação. Regiões com muita atividade de ciclones têm listas mais extensas. A lista do Atlântico e Golfo do México, por exemplo, possui 21 nomes por estação, a do Pacífico Norte Central possui apenas 12. Mas e, se durante a estação, houver mais furacões do que nomes? Cada região tem uma saída para isso. No Atlântico inicia-se o alfabeto grego, Alfa, Beta e assim por diante. Em outras regiões passa-se para a lista do ano seguinte, e em algumas existe até uma lista de nomes reservas!


Imagens do satélite GOES do Furacão Wilma (2005) atingindo a Florida (EUA). Este foi o ciclone tropical mais intenso registrado na bacia do Atlântico, atingindo ventos de 295 km/h. (fonte: NOAA - http://www.ssd.noaa.gov/PS/TROP/trop-atl.html)

Cada grande região já tem uma lista que contempla nomes para mais de um ano. Quando se chega ao último nome da última lista disponível, volta-se à primeira. Por exemplo, no Atlântico temos 6 listas, isso significa que a cada 7 anos, as repetimos. Portanto, em 2023 estaremos usando a mesma lista deste ano! Por isso, às vezes, ouvimos nomes repetidos, ou, quando vamos pesquisar sobre um furacão aparece mais de um com o mesmo nome. Mas então há a pergunta: por que nomes de ciclones "famosos" como Katrina e Sandy não aparecem mais na lista? A resposta é que, por consideração às vítimas, ciclones que causaram muitos danos e mortes têm seus nomes retirados das listas. Nesse caso a WMO elege um nome com a mesma inicial para a substituição. Esse é o caso dos ciclones tropicais Haiyan (Filipinas, 2013), Sandy (EUA, 2012), Katrina (EUA, 2005) e Mitch (Honduras, 1998), por exemplo. Para mais nomes aposentados de furacões, clique aqui.

O furacão Irma (2017) já está entre os mais intensos da história e foi o ciclone mais intenso a atingir os EUA desde o Katrina (2005). Outra característica marcante foi a quantidade de dias que ele ficou em sua intensidade máxima: foram cerca de 2 dias com ventos que atingiram quase 300 km/h (2).  Os danos foram enormes e já se discute sua retirada da lista de nomes (3). Ele é o décimo nome com “I” a ser retirado da lista do Atlântico, sendo esta inicial a com maior quantidade de nomes retirados: Ione (1955), Inez (1966), Iris (2001), Isidore (2002), Isabel (2003), Ivan (2004), Ike (2008), Igor (2010), Irene (2011),  Ingrid (2013).


Exemplo do monitoramento realizado pelo Centro Nacional de Furacões dos EUA (NHC, em inglês). Na imagem podemos ver o furacão José e duas perturbações com pequeno potencial de desenvolvimento de ciclones marcados com "X" amarelo (chances menos que 40%). (fonte: http://www.nhc.noaa.gov/, acessado em 14/09/2017).


Se quiser saber qual será o nome do próximo ciclone tropical, confira as listas no site da Organização Mundial de Meteorologia1.
Quer saber qual será o nome do próximo furacão? Veja na página do National Huricane Center: http://www.nhc.noaa.gov/

Referências

(1) https://public.wmo.int/en/About-us/FAQs/faqs-tropical-cyclones/tropical-cyclone-naming
(2) http://fingfx.thomsonreuters.com/gfx/rngs/STORM-IRMA/010050RH1R0/index.html
(3) https://www.usatoday.com/story/weather/2017/09/07/irma-likely-join-long-list-retired-hurricane-names-start-i/641999001/ 

Sou oceanógrafa pelo IO-USP, onde também fiz mestrado em Oceanografia Física. Sempre me interessei pelo impacto dos oceanos no tempo e no clima, o que me motivou a entrar no doutorado em Meteorologia no IAG-USP. Desde que entrei na graduação, me apaixonei pela física dos oceanos e seus impactos em outros processos. Agora no doutorado, foi impossível não me encantar com a dinâmica e termodinâmica da atmosfera. Busco estar entre esses dois meios e acredito que ainda falta um entendimento integrado entre estas áreas para uma melhor compreensão do sistema climático.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Minicurso sobre isótopos

Que tal viajar no incrível mundo dos isótopos? Então se inscreva nesse curso que ocorrerá de 23 a 26 de outubro no Instituto Oceanográfico, da Universidade de São Paulo

Mais informações: https://www.iojunior.com/cursos





sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Furacão, tornado, tufão e ciclones

Por Gabrielle Souza


  Hoje no descomplicando netuno falaremos sobre fenômenos assustadores, que tem recentemente causado sérios danos nos Estados Unidos. Falaremos de furacões, tornados, ciclones e tufões. Esses fenômenos climáticos naturais são todos originários dos deslocamento de massas de ar, o que chamamos popularmente de vento, e são ocasionados por mudanças fortes na pressão atmosférica. A única coisa que diferencia um furacão de um tufão e de um ciclone é o local onde ocorrem (veja a imagem abaixo).



    Antes de começarmos a diferenciar estes fenômenos, é importante saber que ciclone tropical é um termo genérico usado pelos meteorologistas para descrever um sistema organizado de rotação das nuvens e trovoadas originado sobre águas tropicais e subtropicais. Quando o ciclone tropical atinge mais de aproximadamente 119 km/h, ele é então classificado em furacão, tufão ou ciclone, dependendo da localização, conforme já mostrado acima.

     Existem fatores que podem influenciar e contribuir para a ocorrência destes fenômenos, como: a presença de massas de água quentes nos oceanos, o rápido resfriamento da atmosfera e uma camada próxima a troposfera (camada atmosférica mais próxima da superfície terrestre) relativamente úmida, por exemplo.

    O furacão, mais popular nas mídias recentemente, é caracterizado por fortes ventos com velocidades que podem atingir até 300 km/h, girando em sentido horário (hemisfério sul) e anti-horário (hemisfério norte). Possuem entre 400 a 650 km de diâmetro e ocorrem geralmente no Oceano Atlântico. Os furacões são formados, quando o ar quente e úmido (seta vermelha da figura abaixo) sobe e se condensa formando chuvas fortes, criando uma zona de baixa pressão próximo a superfície da água. O ar quente estando sob uma pressão relativamente maior que o ar frio (seta azul), movimenta-se em direção ao "espaço" ocupado pelo ar mais frio, de menor pressão, que suga o ar do ambiente quente, e também sobe. Esse fluxo promove a criação de nuvens e chuva (veja a imagem abaixo). O ar que contorna a zona de baixa pressão cria uma espiral de velocidades muito altas que podem acabar atingindo a superfície terrestre e oceânica. 




        No centro do furacão está a parte denominada de “olho da tempestade” ou “olho do furacão”, onde o céu é praticamente limpo, os ventos são baixos e não existe precipitação.

    O tornado, outro termo que comumente escutamos, é caracterizado pelos meteorologistas como o fenômeno de menor duração. Ocorre geralmente nas zonas temperadas do Hemisfério norte, sendo os mais intensos observados no centro-oeste dos Estados Unidos e Austrália. Quando tocam o solo produzem grandes redemoinhos de poeira que possuem até 10 km de diâmetro, atingindo cerca de 500 km/h, durando entre 10 e 30 minutos. Quando acontecem no mar, o interior da coluna “vazia” é preenchida com a água sugada, formando-se a tromba d’água.

     De acordo com alguns cientistas o aumento recente da ocorrência e intensidade dos furacões está relacionado com o aquecimento dos oceanos. Isso ocorre porque, segundo o professor Gabriel Vecchi de geociências da Universidade de Princeton, “Um oceano mais quente faz uma atmosfera mais quente, uma atmosfera mais quente pode conter mais umidade”, ou seja, os furacões irão armazenar mais água. Por conta dessa elevação na temperatura, para cada aumento de 1 grau Celsius, aumenta também 7% de água no ar, justificando o aumento da quantidade de água quando essas tempestades atingem o solo.

Para você fixar o assunto desse post nós elaboramos um Quiz.  Só clicar no link abaixo! Esperamos que goste ;) 



Referências

NOAA. What is the difference between a hurricane, a cyclone, and a typhoon?: The only difference between a hurricane, a cyclone, and a typhoon is the location where the storm occurs.. 2017. National Oceanic and atmospheric administration U.S department of commerce- NOAA. Disponível em: <https://oceanservice.noaa.gov/facts/cyclone.html>. Acesso em: 20 set. 2017.

INPE. Qual a diferença entre tornado, tufão e furacão? 2013. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais- INPE. Disponível em: <http://www.inpe.br/noticias/namidia/img/clip26092013_11.pdf>. Acesso em: 20 set. 2017.

FIOCRUZ. Os ventos. Fundação Oswaldo Cruz- Fiocruz. Disponível em: <http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/ventos.htm>. Acesso em: 20 set. 2017.

PAULO, Prefeitura de Santo André- São. Tornados, Furacões e Tufões. 2008. Disponível em: <http://www.santoandre.sp.gov.br/biblioteca/bv/hemdig_txt/080507001.pdf>. Acesso em: 20 set. 2017.

THAN, Ker. Typhoon, Hurricane, Cyclone: What's the Difference?: Hurricanes, cyclones, and typhoons are all the same weather phenomenon.. 2013. National Geographic. Disponível em: <http://news.nationalgeographic.com/news/2013/09/130923-typhoon-hurricane-cyclone-primer-natural-disaster/>. Acesso em: 20 set. 2017.

BBC, British Broadcasting Corporation-. How hurricanes form. 2014. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/schools/gcsebitesize/geography/weather_climate/weather_human_activity_rev2.shtml>. Acesso em: 20 set. 2017.

WORLAND, Justin. The One Number That Shows Why Climate Change Is Making Hurricane Season Worse. 2017. Disponível em: <http://time.com/4931586/irma-hurricane-season-climate-change/>. Acesso em: 27 set. 2017.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O ar que você respira

Por Cláudia Namiki

No dia 03 de setembro, recebi uma linda mensagem me parabenizando pelo Dia do Biólogo, que dizia assim: “Biologia: muito obrigado por você NÃO fazer parte da minha vida”. Depois de perceber o NÃO, achei essa frase um verdadeiro paradoxo, já que bio significa vida, e o ser humano que escreveu essa mensagem devia estar “vivinho da silva”, utilizando o oxigênio produzido por outros seres vivos através da fotossíntese, para a manutenção de suas células enquanto pensava que não tinha nada de biologia em sua vida...



Ilustração: Joana Ho.

E se eu contasse que boa parte do oxigênio consumido por esse indivíduo foi produzido por microalgas e cianobactérias, organismos tão pequenos que a gente não consegue ver? Esses microrganismos formam o grupo que chamamos de fitoplâncton, que além de sustentar toda a teia trófica marinha, são responsáveis pela produção de aproximadamente 40% do oxigênio produzido anualmente no planeta (Falkowski, 1994). Assim, embora você não veja as microalgas e cianobactérias quando está em frente ao mar, saiba que elas podem afetar profundamente os ciclos de oxigênio e carbono na Terra tanto quanto as vistosas plantas terrestres.(veja aqui Por que alga não é planta, por que planta não é alga


Mas a importância dessas pequenas criaturas não para por aí:  a vida no planeta como ela é hoje não existiria sem as cianobactérias. Os geólogos descobriram que durante a primeira metade dos 4,6 bilhões de anos de existência da Terra quase não existia oxigênio livre em sua atmosfera. O oxigênio começou a se acumular na atmosfera terrestre a apenas 2,4 bilhões de anos, graças à fotossíntese realizada pelas antepassadas das cianobactérias atuais. As plantas terrestres só apareceram 2 bilhões de anos após os níveis de oxigênio na atmosfera começarem a subir (Falkowski, 2012).


Ou seja, todos os Homo sapiens sapiens, incluindo você, é claro, e todas as outras formas de vida dependentes de oxigênio devem, em grande parte, sua existência ao surgimento de uma única célula capaz de obter a energia do Sol para transformar a matéria inorgânica (carbono, água e outros nutrientes) em alimento.


Deste modo, não pense que Biologia não faz parte da tua vida só porque não foi o curso que você resolveu estudar! Ela está em tudo, inclusive no ar que você respira!


Para saber muito mais, assista ao vídeo na página

http://www.sciencemag.org/news/2017/03/meet-obscure-microbe-influences-climate-ocean-ecosystems-and-perhaps-even-evolution

Sugiro também que ouça a música do Spyro Gyro de Jorge Ben, para saber como as microalgas podem influenciar até a música popular brasileira. ;)





Post relacionado:


A fertilização dos oceanos e as mudanças climáticas 



Referências:


Paul G. Falkowski. The role of phytoplankton photosynthesis in global biogeochemical 
Cycles. Photosynthesis Research 39: 235-258. 1994.


Paul G. Falkowski. The power of plankton. Nature, 483: 17:20. 2012.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O que eu aprendi sobre saúde mental na pós-graduação

Por Carolina Maciel
Não é novidade existirem alunos reclamando sobre a pós-graduação. Os comentários são sempre os mesmos: “isso me deixa nervoso”, “não estou conseguindo fazer isso”, “não vou conseguir entregar a dissertação/tese no prazo”, além do clássico: “estou cansado(a)!”.
Depois de 4 anos exaustivos e uma média de 140 provas sobre diversos assuntos , como num passe de mágica eu finalmente repousaria no “paraíso da pós-graduação”, mesmo sem a advertência sobre as seis horas diárias de dedicação aos estudos para conseguir o tão sonhado lugar na universidade pública.
Os motivos para que alunos recém-formados procurem a pós-graduação são muitos: realização profissional, pessoal, pressão de terceiros, indecisão na carreira, oportunidade de renda, etc., e independente de qual seja o motivo, a maioria das pessoas procura fazer o seu melhor trabalho.
 Apresentando meu trabalho de mestrado na
conferência Latino-Americano SETAC.

A
ssim como eu, muitos sonham em se especializar na área que mais teve afinidade na graduação, vendo o mestrado (ou doutorado) como uma opção de aprofundar seu conhecimento. Até aí, nenhum problema em vista.

O problema começa na forma em que a pós-graduação é encarada pelos alunos, pesquisadores e universidades. A regra da pós-graduação é levar os alunos até o seu limite: sono atrasado para cumprir prazos apertados, relatórios, matérias de especialização, progresso na pesquisa, cobranças do orientador...
Cobranças, sono atrasado, estresse e vida social restrita: bons ingredientes, que misturados, dão uma boa porção de distúrbios psicológicos. Não foi diferente comigo. Eu sempre achava: “tenho que tomar cuidado, mas é LÓGICO que isso não vai acontecer porque estou no controle”.
Ilustração: Caia Colla
Num dia ensolarado, trocava a praia pelo computador para começar a analisar meus resultados, quando, de repente, um clarão invadiu meus olhos, esqueci completamente meu nome, os comandos do programa que utilizava de olho fechado, o que eu estava fazendo de frente para o computador... E então eu senti um vazio extremo, como se todo o esforço e conhecimento tivessem desaparecido. Me vi no fundo do poço.
Hoje sei que o que tive foi apenas uma das muitas crises de ansiedade causadas pela pós-graduação, o que me levaram a procurar ajuda psicológica externa. A pós-graduação tinha se tornado um peso para mim e que se eu continuasse a carregá-lo, iria entrar em depressão. Com essas palavras, eu resolvi parar.
A pós-graduação nunca me ensinou a parar, e sim a continuar exaustivamente até conseguir minha melhor performance na pesquisa. Mas o que não te ensinam é que o cansaço estraga tudo e pausas (como férias) são extremamente importantes para a produtividade e manutenção da saúde mental.
As pausas dentro da pós-graduação não são bem vistas. Já que a gente “só estuda”, por que tirar férias? Pois é, se consultar o site do CNPq (principal órgão brasileiro financiador de pesquisas), não existe férias para alunos de pós-graduação. A dedicação deve ser exclusiva.
Nesse processo de adoecimento pela pesquisa, passei por crises de choro, inseguranças sobre o que estava fazendo no laboratório, ilusão de perseguição pelos meus amigos de trabalho, sentimento de que não era boa o bastante e o mais extremo de todos: o sentimento de que se eu tirasse a própria vida, o sofrimento de me sentir inferior na pesquisa, pararia.
E essa não é uma realidade distante. Há alguns dias infelizmente perdemos um aluno de pós-graduação do Instituto Biociências da Universidade de São Paulo, vítima de distúrbios psicológicos relacionados à pós-graduação.
A universidade e a ciência no país são completamente ingratas. E desde o dia em que eu não via mais sentido em viver, ressignifiquei tudo na minha vida. O que incluiu a minha relação com a pós-graduação.
Reclamamos dos nossos orientadores, mas eles também são cobrados tanto quanto nós, criados nesse sistema onde o seu sobrenome e ano de publicação valem mais e são treinados dentro das universidades para explorar o potencial de cada aluno.
A universidade não está pronta para considerar a questão mental nos programas de pós-graduação. Não nos sentimos acolhidos, e sim num campo de batalha: “aos vencedores, os artigos científicos!”. Sustentar a própria pesquisa no ambiente hostil das universidades torna os alunos e pesquisadores exaustos, aumentando as chances de desenvolver distúrbios psicológicos sérios como a depressão.
A insegurança sobre o financiamento de nossas pesquisas no país é um fantasma que nos assombra e contribui para que nossa saúde mental seja afetada; afinal, hoje fazemos pesquisa, mas amanhã, não sabemos como nos manter financeiramente fazendo o que amamos no laboratório.
Então qual seria a solução? Garanto que pausas resolvem parte do problema. Se dedicar ao que gosta (por mais clichê que seja) também é importante. Eu por exemplo, comecei a meditar, virei vegetariana e estou começando a empreender em algo que gosto. Fazendo isso, treinei a minha mente para não sentir culpa de viver além da pós-graduação e passei a me ver também como “pessoa”, além de “pesquisadora”.
Fazer ciência é uma viagem prazerosa, mesmo que às vezes existam pontos de stress (stress saudável existe, sabia?). Se procurarmos no dicionário, “ciência” não é sinônimo de “sofrimento”. Desde que entendi isso, passei a relaxar, curtir a viagem sem pensar tanto no destino.

As férias da pós-graduação
(sim, elas existem!)
Dedicação exclusiva sem férias é a regra da pós-graduação no país, mas pela minha saúde mental, eu resolvi ser exceção. Os resultados só foram positivos: a minha produtividade aumentou, as minhas relações interpessoais melhoraram, me apaixonei novamente pela pesquisa e consegui reencontrar o motivo pelo qual comecei a pós-graduação.
Não é normal nenhum tipo de sofrimento causado pela pesquisa na pós-graduação. Nem pequeno, nem grande. Por isso, se já está na pós-graduação ou ainda pretende ingressar, vai meu conselho: cuide muito bem da sua saúde mental.

Sabemos o quão difícil foi o caminho até aqui e desistir do que se ama não deve ser uma opção. Sempre existe um jeito mais leve de se encarar a pesquisa. Que tal começar a experimentar?

Sobre Carolina Maciel:
Bióloga marinha pela Universidade Santa Cecília, atual aluna de mestrado do programa de pós-graduação em Oceanografia da USP. Ama o mar e seus mistérios. Educação é sua paixão e autoconhecimento é sua palavra.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A "razão de ser" da Oceanografia por Satélites

Por Gustavo Prouvot Ortiz

Originalmente publicado em: https://www.linkedin.com/pulse/razão-de-ser-da-oceanografia-por-satélites-gustavo-prouvot-ortiz

DSA/CPTEC/INPE (data provided by KNMI)

    Assim como o pioneiro Iuri Gagarin ficou extasiado ao observar nosso lindo planeta e exclamar que "A Terra é azul", atualmente os satélites científicos permitem que nós tenhamos momentos de êxtase diariamente. Isto é possível pois sensores em órbita na Terra são capazes de observar e medir diferentes variáveis e processos ambientais. 

   O Sensoriamento Remoto por satélites permite a observação de grandes regiões praticamente no mesmo instante, sendo possível avaliar a extensão espacial de fenômenos normalmente pesquisados localmente, com auxílio de equipamentos de campo. A Oceanografia beneficiou-se com o advento dos satélites a partir do final da década de 70, permitindo uma visão e entendimento sem precedentes dos processos oceanográficos existentes. 

   Diversas variáveis primárias medidas pelos satélites, como radiância, temperatura de brilho, rugosidade superficial e topografia dinâmica são utilizadas na Oceanografia por Satélites para a estimativa de variáveis importantes como temperatura superficial, concentração de clorofila-a, velocidade geostrófica, altura de ondas, campo de ventos superficiais, entre outros. Desta forma, o Sensoriamento Remoto tornou-se essencial para a Oceanografia moderna, provendo uma grande extensão espacial das observações às variáveis oceanográficas tradicionalmente estudadas por navios, bóias e sensores isolados.

   Atualmente, além da utilização dos sensores de campo para calibração e validação dos dados de satélites, há a tendência de sinergia dos dados de diferentes fontes, aproveitando o que cada tipo de sensor pode prover de melhor. Os crescentes avanços na capacidade computacional e gráfica dos grandes centros de Observação da Terra permitem, cada vez mais, que nós tenhamos momentos de êxtase como Iuri Gagarin, porém dizendo que "A Terra é Azul - e tem um monte de coisa acontecendo nela!".

   Este texto foi motivado por um post feito pelo Ocean Biology Distributed Active Archive Center (OB.DAAC) da NASA, que indica de forma simples "a razão de ser da Oceanografia por Satélite"


“The patchiness exhibited by phytoplankton communities around New Zealand in the image provides the raison d'être for satellite remote sensing of ocean color; a whole fleet of ships, drifters, gliders, and buoys could not capture this variability before it morphed into a new pattern.”

Saudações oceanográficas!

Gustavo já publicou outro post no Bate-papo com Netuno, leia aqui



Sobre Gustavo Prouvot Ortiz

Sou oceanógrafo com experiência em sensoriamento remoto, geologia marinha, Lei do Mar e geopolítica. Vejo o oceanógrafo (bem formado) como um "naturalista moderno", capaz de observar e descrever processos com abordagem multidisciplinar e desempenhar papel relevante em diversos setores da sociedade. Tenho paixão pela divulgação científica e, como pai, creio que somos responsáveis por desenvolver o senso crítico nos pequenos e fazê-los perceber seu papel em nosso complexo planeta.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

17º Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar




O 17o Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar (Colacmar) ocorrerá esse ano no Brasil, de 13 a 17 de novembro.


Não percam essa oportunidade de participar de um evento internacional em casa!


Informações: http://www.colacmar2017.com

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O que é Maricultura?

Por Gabrielle Souza 

Você já ouviu o termo “Maricultura”? Sabe qual a importância dessa prática? No Descomplicando Netuno de hoje vamos falar sobre isso!


   Você já deve ter escutado falar sobre a criação de algas e animais aquáticos em viveiros, não é mesmo?! Esta prática é conhecida como aquicultura, que nada mais é do que criar condições parcial ou totalmente controladas para cultivar esses organismos. Para ser considerada uma atividade de aquicultura, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), são necessários três requisitos:
  • que o organismo possua habitat predominantemente aquático em algum estágio de seu desenvolvimento;
  • a existência de manejo e produção;
  • a existência de um proprietário da criação (não é um bem coletivo).


   A aquicultura é um termo muito amplo e engloba todos os organismos que vivem em ambiente aquático. Por isso, para o cultivo e criação dos organismos marinhos ou estuarinos foi criado o termo maricultura. 

   A maricultura pode ser subdividida de acordo com o tipo de organismo cultivado, como por exemplo: peixes (piscicultura), crustáceos (carcinicultura - que se restringe somente a camarões no Brasil), moluscos (malacocultura) e algas (algicultura).

   Você deve estar se perguntando, “como estes organismos são criados e obtidos?” Geralmente os organismos são obtidos no ambiente natural em seu estágio jovem, porém também podem ser produzidos em laboratório, incluindo a reprodução e criação de larvas, conhecida como larvicultura.

   Depois da obtenção da forma jovem, os organismos são cultivados em viveiros escavados, tanques ou no mar, comumente em ambientes costeiros abrigados como baías, golfos, entre outros. Os viveiros mais utilizadas para criar este animais no mar são: gaiolas, longlines, balsas e tanques-rede.

Figura A: Longlines (ou longa linha). Fonte
Figura B: Lanterna com cinco andares, utilizados para criação de moluscos. Fonte
Figura C: Gaiola utilizada para criação de peixes. Fonte

      Para cada tipo de cultivo utiliza-se condições físico-químicas da água adequadas e controladas, como por exemplo temperatura, iluminação, salinidade, concentração de oxigênio dissolvido, amônia e nitrito.

  Na tabela abaixo observa-se a produção em toneladas da maricultura brasileira entre os anos de 2008 a 2010, onde as práticas mais comuns são carcinicultura e malacocultura. No país a maricultura é praticada em todos os estados costeiros e está, a cada dia mais, se estabelecendo como atividade produtora do pescado, sendo uma fonte de renda para diversas famílias, que garantem o sustento com essa prática. São destaques a região sul, em Santa Catarina, com a produção de mexilhões, ostras e vieiras.

Tabela Adaptada de Castello & Krug, 2015

    A maricultura é vista com grande importância na produção de alimentos e para outros ramos da indústria. É uma atividade de potencial crescimento, podendo atender o déficit entre demanda e oferta dos produtos pesqueiros. Porém, como qualquer outra intervenção humana na natureza, a maricultura tem seus pontos negativos e positivos. Ao mesmo tempo que é uma atividade que não sobrecarrega os estoques pesqueiros naturais, que gera fonte a comunidades tradicionais, pode causar desmatamento em áreas costeiras, a contaminação das águas, a introdução de espécies exóticas (que não são nativas) entre outros problemas. Assim sendo, faz-se necessário buscar uma maricultura cada vez mais sustentável, que minimize os impactos ambientais, e beneficie a sociedade e a economia local. Falaremos mais sobre isso em outro post, aguardem!


Para saber mais:




Referências

CASTELLO, Jorge Pablo; KRUG, Luíz Carlos. Introdução às Ciências do Mar. Pelotas: Textos, 2015. 602 p.


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Para onde foi a água do mar?

Por Gustavo Prouvot Ortiz




(adaptação da foto de Léo Saballa Jr/RBS TV)

   Recentemente foi muito comentado na imprensa e redes sociais o acentuado recuo do mar observado nos estados do Sul e Sudeste, nos dias 12 e 13 de agosto. Muitas dúvidas surgiram a respeito:

Qual será o motivo desse fenômeno? 
Será que é um tsunami? 
Já aconteceu outras vezes?


Para entender: o nível do mar é influenciado basicamente por:  

Nível Eustático + Maré Astronômica + Efeitos Meteorológicos      

  1. Nível Eustático: nível regional, associado a longos ciclos climáticos maiores que 1.000 anos     
  2. Maré Astronômica: forçada pela dinâmica gravitacional da Terra e outros corpos celestes (Sol, Lua...) - ciclos entre 12h e 24h (saiba mais aqui)     
  3. Efeitos Meteorológicos: também chamados de "maré meteorológica", são efeitos forçados por incidência de vento local ou instabilidades na atmosfera - duram até poucos dias  

Explicação 

   O recente caso chamou a atenção pelo baixíssimo nível do mar, que resultou no recuo da linha d'água de mais de 50m em alguns locais mais planos. 

   Dentre as três opções anteriores, podemos, é claro, descartar a (1) pela escala temporal. A opção (2) também pode ser descartada como principal forçante, pois nos dias 12 e 13 a Lua estava indo para a fase minguante, que está relacionada às marés de quadratura (baixa amplitude). 

   Sobra, então, a opção (3) Efeitos Meteorológicos. Mas como eles poderiam gerar tal fenômeno? Vejamos: 

   O escaterômetro é um sensor a bordo de satélites capaz de medir a velocidade e direção do vento na superfície do oceano. Na manhã do dia 12 o sensor a bordo do MetOp-A registrou fortes ventos vindos de NE ao largo dos estados do Sul e Sudeste. Este padrão de ventos já vinha sendo observado há alguns dias na região.








Esta configuração de vento paralelo à costa gera o processo oceanográfico chamado de transporte de Ekman:
  Através de um complexo equilíbrio de forças, há um deslocamento da superfície do mar à esquerda da direção do vento

Foi este então o fenômeno observado. Matamos a charada!




Respostas ao restante das perguntas iniciais:  

Será que é um tsunami? 
Não é um tsunami! Vimos que foi um efeito meteorológico o causador deste baixo nível do mar anômalo.   
Já aconteceu outras vezes?  
Felizmente há uma série histórica de dados globais de escaterômetros desde 1999, o que permite realizar análise dos períodos em que o campo de vento apresentou características semelhantes nesta região. Alguém habilita-se a colaborar em um estudo?  
Outra forma de encontrar períodos anômalos do nível do mar é analisando os dados de marégrafo. Os registros em Ubatuba-SP indicam sim que houve ao menos outros 04 período anômalos desde 2014:


É interessante notar que no dia 05-out-2014 o nível esteve até mais baixo que o do recente fenômeno. 

Estes registros indicam que é um fenômeno anômalo, mas ocorreu entre os meses de junho e outubro. Será que há alguma regularidade? Uma análise temporal mais longa pode elucidar isto.
Há algo em comum nos processos atmosféricos destes dois períodos?  
Sim! O campo de vento medido pelo escaterômetro registrou fortes ventos de NE e havia a mesma configuração sinóptica, como podemos ver nas cartas geradas pelo CPTEC:



Em ambos os períodos havia um dipolo (Alta e Baixa pressão) com características estacionárias atuando na região. Será que esta configuração somente ocorreu entre os meses de junho e outubro, no mesmo período da anomalia de maré baixa? 

Para saber mais: https://www.youtube.com/watch?v=lnaEmcLE0nA

Sobre Gustavo Prouvot Ortiz

Sou oceanógrafo com experiência em sensoriamento remoto, geologia marinha, Lei do Mar e geopolítica. Vejo o oceanógrafo (bem formado) como um "naturalista moderno", capaz de observar e descrever processos com abordagem multidisciplinar e desempenhar papel relevante em diversos setores da sociedade. Tenho paixão pela divulgação científica e, como pai, creio que somos responsáveis por desenvolver o senso crítico nos pequenos e fazê-los perceber seu papel em nosso complexo planeta.