quinta-feira, 24 de maio de 2018

Uma breve história do Big-Bang ao alvorecer da vida: Parte III


Sobre as nossas origens químicas: a formação das biomoléculas

Imagem artística da Terra 
primitiva, onde possivelmente 
foram formadas as biomoléculas. Fonte.
Um conjunto de condições incrivelmente raras (Parte II) permitiu que a vida surgisse em nosso planeta a partir de moléculas orgânicas e reações químicas. Todos os organismos vivos que conhecemos são compostos por biomoléculas como proteínas, ácidos nucléicos, polissacarídeos e lipídeos.

Estas biomoléculas são constituídas por pequenas unidades interligadas entre si, denominadas monômeros. Os biomonômeros que constroem as proteínas, ácidos nucleicos (DNA e RNA) e polissacarídeos são respectivamente os aminoácidos, nucleotídeos e monossacarídeos. Hoje sabemos que grande parte dos biomonômeros podem ser produzidos espontaneamente dadas as condições necessárias.

Esquema do experimento de 
Miller-Urey (1953) 
que buscou simular as condições 
da Terra primitiva. Fonte.
Uma das primeiras tentativas de produzir biomoléculas em laboratório foi feita por Stanley Miller e Harold Urey em 1953. Eles se basearam em estudos realizados por Alexander Oparin e J.B.S. Haldane que sugeriram que as biomoléculas e a vida teriam surgido em uma sopa primordial, numa atmosfera rica em metano, amônia, hidrogênio e vapor d’água.

O experimento de Miller-Urey procurou simular estas condições da Terra primitiva (início do Arqueano) descritas por Oparin-Haldane: em um sistema selado foram inseridos os gases que comporiam a atmosfera primitiva descrita acima, além de descargas elétricas, uma fonte de calor e água líquida. Nestas condições, foram produzidos uma série de biomonômeros, como os aminoácidos glicina e alanina, e outros compostos orgânicos, como uréia e ácido fórmico.

Embora estudos recentes indiquem que a composição da atmosfera primitiva não era exatamente como Oparin e Haldane propuseram, a importância dos resultados experimentais de Miller-Urey revolucionaram o nosso conceito a respeito da origem da vida, concretizando a ideia de uma origem química para todos os organismos vivos.

Outro grande passo para o surgimento das primeiras células vivas foi a polimerização destes pequenos blocos estruturais chamados biomonômeros. Como os bloquinhos de aminoácidos, monossacarídeos e nucleotídeos se estruturaram para formar respectivamente as cadeias de proteínas, os polissacarídeos ou a estrutura complexa do DNA e RNA? Infelizmente ainda não temos todas as respostas para estas perguntas e as hipóteses que vêm sendo desenvolvidas são difíceis de serem testadas.

Tipos de biomoléculas que compõem os seres vivos. Fonte.

Uma pergunta importante ao se discutir a origem da vida é como estas biomoléculas agruparam-se de maneira a formar o que seria a primeira célula viva, capaz de carregar uma informação genética e se reproduzir. Essa também é uma questão que ainda desafia a ciência mas novamente, muitos pesquisadores buscam explorar novas ideias que expliquem o grande salto de um mundo essencialmente químico para um mundo biológico.

Fluxo da informação genética nos 
organismos atuais. Fonte.
Um dos primeiros passos deste grande salto é entender como uma molécula de ácido nucleico desempenhou o papel essencial de guardar uma informação capaz de ser transmitida para as gerações seguintes. Uma das hipóteses mais aceitas para a origem da informação genética é a do mundo do RNA, que sugere que o RNA surgiu antes da molécula de DNA. No entanto, em todos os organismos vivos atuais, o fluxo de informação genética inicia-se no DNA. Por que, então, as primeiras células ou proto-células teriam o RNA como a principal fonte de informação genética?

O DNA nas células atuais necessita de uma maquinaria complexa de proteínas para ser replicado. Estas proteínas, por sua vez, necessitam de uma molécula de DNA que carregue a informação para a sua posterior tradução. Assim, a dicotomia de quem surgiu primeiro, DNA ou proteína, torna esta questão praticamente insolúvel.

Hipótese do mundo do RNA:
o RNA teria sido a primeira molécula
informacional dos seres vivos primitivos. Fonte.
Por este motivo, muitos cientistas sugerem que o RNA foi a primeira molécula informacional a surgir, pois ele apresenta duas propriedades essenciais para a manutenção de uma célula primitiva: uma atividade de ribozima, que o torna capaz de catalisar a sua própria replicação, e uma atividade catalítica capaz de sintetizar algumas proteínas. Continuamos sem entender como mutações na molécula de RNA deram origem ao DNA, e como este último foi posteriormente selecionado como principal fonte de informação genética da célula.

Outro passo importante para a formação das primeiras células vivas é o surgimento da compartimentalização. Todas as células possuem uma membrana plasmática composta essencialmente de fosfolipídeos que garante a proteção do conteúdo citoplasmático. A compartimentalização delimita as moléculas no interior das membranas, facilitando suas interações químicas. Além disso, a permeabilidade seletiva da membrana plasmática torna a concentração química no interior celular diferente da concentração do meio, e essa característica é fundamental para os processos celulares.

Compartimentos lipídicos são facilmente formados de forma espontânea devido à sua natureza anfipática - basta derramar um pouco de óleo num copo com água e observar. Provavelmente na Terra primitiva, os compartimentos formados acabaram encapsulando biomoléculas e alguns constituintes que dariam origem às primeiras formas de metabolismo e funcionamento celular.  



Gostou? Então, aguarde as cenas dos próximos capítulos!


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terça-feira, 22 de maio de 2018

Semana Mundial do Meio Ambiente (IO-USP)

Saiu a divulgação da programação das atividades para as celebrações da SEMANA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE (4 a 9 de junho), DIA MUNDIAL DOS OCEANOS e DIA NACIONAL DOS OCEANÓGRAFOS (8 de junho) do Instituto Oceanográfico da USP.

Durante a "Semana Mundial do Meio Ambiente" vamos participar de um gostoso bate-papo sobre os desafios de ser mulher cientista do mar. Essa mesa-redonda está sendo organizada pela nossa equipe e contará com a participação de professoras e alunas do IOUSP. O evento é gratuito e o IOUSP estará de portas-abertas a todos!

Confiram abaixo a programação completa!!!

Todas as atividades são abertas ao público e gratuitas!

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Apenas duas das atividades dependem de inscrição prévia: (1) o curso "Descobrindo os Oceanos: Embarque Imediato", e (2) o "VII Seminário de Manejo Integrado".

Anote na agenda: 4 a 9 de junho de 2018
Instituto Oceanográfico da USP
Compartilhe! Compareça! Participe!



quinta-feira, 17 de maio de 2018

Tubarão: caçador ou caça?

Por Cláudia Namiki


Ilustração: Joana Ho


   Se você aprecia uma boa moqueca, já deve ter comido carne de cação. Ou pelo menos já observou as belas postas de cação à mostra em feiras e peixarias. Mas você sabe o que é o cação?

   Cação nada mais é do que o nome dado à carne dos tubarões e das raias (ou arraias) que comemos (Figura 1). Ou seja, quando compramos cação, significa que vamos comer tubarão! Surpreendentemente, a maioria das pessoas não sabe disso, segundo apontou um estudo realizado em Curitiba, onde mais da metade das pessoas afirmaram que comem cação, mas que nunca comeram raia ou tubarão (Bornatowski et al., 2015).


Figura 1: Anúncio das postas de cação comercializadas no CEAGESP em São Paulo. http://ceagespoficial.blogspot.com.br/2017/04/cacao-e-destaque-da-semana-aproveite.html



   O problema é que existem 145 espécies de tubarão e raias no Brasil, dentre as quais 33% estão ameaçadas de extinção. Mas, como qualquer espécie de raia ou tubarão é vendida sob o nome de cação, já em postas (provavelmente para não assustar a freguesia), não há como saber exatamente o que está sendo vendido e, dessa forma, ao consumir o cação, podemos estar contribuindo para a extinção de uma espécie. Considerando que o nosso país ocupa o 11º lugar na produção, e o primeiro lugar na lista de importadores de carne de tubarão do mundo (segundo o relatório da FAO - Food and Agriculture Organization of the United Nations), aqui no Brasil, a nossa chance de contribuir para esse terrível fim se torna bastante elevada (Barreto et al., 2017). O consumo das nadadeiras de tubarão em alguns países da Ásia, onde são consideradas uma iguaria e são vendidas por valores elevados, têm contribuído para o aumento da pesca do tubarão. A retirada das valiosas nadadeiras do tubarão é chamada de “finning” (Figura 2). Normalmente, após o finning, os animais são cruelmente jogados no mar ainda vivos, pois o baixo preço de venda da carne do tubarão não compensa o custo do armazenamento. No entanto, a prática do finning é proibida por lei no Brasil. Então os pescadores armazenam o charuto (nome dado ao corpo do tubarão após a retirada das nadadeiras) para ser vendido a um preço muito baixo, incentivando ainda mais o consumo de cação.

Figura 2: Finning - nadadeira dorsal recém retirada de um tubarão martelo. Foto: © Jeff Rotman/jeffrotman.com . http://ocean.si.edu/ocean-news/shark-finning-sharks-turned-prey

   Se a nem a extinção de uma espécie e nem a crueldade do finning comove algumas pessoas, há ainda outros motivos para se evitar comer a carne de tubarão. Um deles é a preservação da nossa própria saúde: como predador de topo os tubarões acumulam grandes quantidades de metais pesados, como mercúrio e chumbo, em um processo chamado de biomagnificação (já falamos desse assunto aqui no blog). Assim, quando a pessoa come o tubarão se torna o próximo consumidor na cadeia alimentar e acumula os metais pesados presentes em sua carne (Alves et al., 2016, Escobar-Sánchez et al., 2011, Lopez et al., 2013). Os metais pesados são extremamente tóxicos para o organismo, principalmente em grandes quantidades, causando diversos problemas de saúde.

   O outro motivo é um serviço ecológico: os tubarões controlam o crescimento de populações de diversas espécies, seja por predação direta ou por mantê-las afastadas de determinada área por “medo” de serem devoradas. Grandes tubarões podem se alimentar de outros tubarões, de leões marinhos, de tartarugas e de outros animais da megafauna carismática. Porém, muitas espécies de tubarões se alimentam principalmente de invertebrados, como camarões, siris e caranguejos. Infelizmente até plástico pode fazer parte da dieta do tubarão (Figura 3). Também existe uma espécie filtradora que se alimentam de plâncton, como o tubarão baleia. Recentemente, pesquisadores americanos descobriram que uma espécie de tubarão martelo (Sphyrna tiburo), se alimenta principalmente de gramas marinhas quando jovem. Ainda não se sabe se o jovem tubarão ingere a grama por acidente ao caçar outros animais, ou se ele é realmente capaz de digerir e se alimentar desses vegetais. Essa descoberta pode revelar a existência de interações na cadeia trófica marinha até então ignoradas pelos pesquisadores.

Fonte: http://www.sciencemag.org/news/2018/01/meet-world-s-first-salad-eating-shark



Figura 3: Tubarão tigre (acima) e alguns de seus itens alimentares (abaixo). Modificado de: Currents, The Ocean Foundation. https://chooseyourcurrent.org/2017/08/whats-in-a-tiger-sharks-stomach/




   Dessa forma, embora tenham criado fama de maus, graças aos filmes da franquia Tubarão e outros filmes trash (na minha humilde opinião), o homem não faz parte da dieta desses animais. Os ataques a seres humanos normalmente ocorrem por engano. Lugares com alta frequência de ataques de tubarão, normalmente estão associados a lugares onde os tubarões costumam se alimentar. Nas praias urbanas de Recife o alto índice de ataques de tubarão se deve a uma série de fatores, entre eles a construção do Porto de Suape, que destruiu o manguezal onde as fêmeas dos tubarões costumavam parir. Sem esse local, os tubarões passaram a frequentar as águas do estuário do rio Jaboatão, que desemboca nas praias, aumentando a frequência de encontro com banhistas e consequentemente elevando o número de ataques.

   A pesquisadora Dana Bethea, que dedica sua vida a estudar tubarões e raias, sugere algumas medidas para evitar o ataque de tubarões: evitar nadar ao nascer e ao pôr do sol, pois os tubarões estão mais ativos durante o crepúsculo; evitar nadar em águas com pouca visibilidade, dessa forma o tubarão pode te enxergar melhor e não vai mordê-lo; evitar áreas onde os tubarões se alimentam; não nadar sozinho; e remover as jóias antes de entrar na água, pois o brilho das mesmas pode levar o tubarão a crer que você é um peixe prateado saltitante. E se mesmo assim você continuar com medo, Dana sugere que você não entre na água, pois os tubarões não podem sobreviver em terra firme (rsrsrs).


   O fato é que, embora os ataques de tubarões a seres humanos sejam acidentes muito tristes, eles poderiam ser evitados em sua grande maioria e são estes grandes animais que estão sendo atacados por nós, com uma frequência tão elevada que podemos levá-los à extinção rapidamente.


Para saber mais:








Referências Bibliográficas


Barreto, R.R., Bornatowski, H., Motta, F.S., Santander-Neto,  J., Vianna, G.M.S., Lessa, R.. 2017. Rethinking use and trade of pelagic sharks from Brazil. Marine Policy, 85: 114–122.


Hugo Bornatowski, Raul Rennó Braga, Carolina Kalinowski, Jean Ricardo Simões Vitule. 2015. “Buying a Pig in a Poke”: The Problem of Elasmobranch Meat Consumption in Southern Brazil. Ethnobiology Letters, 6 (1): 196-202.

Luís M.F. Alves, Margarida Nunes, Philippe Marchand, Bruno Le Bizec, Susana Mendes, João P.S. Correia, Marco F.L. Lemos, Sara C. Novais. 2016. Blue sharks (Prionace glauca) as bioindicators of pollution and health in the Atlantic Ocean: Contamination levels and biochemical stress responses. Science of the Total Environment, 563–564: 282–292.

Sebastián A. Lopez, Nicole L. Abarca, Roberto Meléndez C.  2013. Heavy metal concentrations of two highly migratory sharks (Prionace glauca and Isurus oxyrinchus) in the southeastern Pacific waters: comments on public health and conservation. Tropical Conservation Science, 6 (1): 126-137.

Ofelia Escobar-Sánchez,  Felipe Galván-Magaña, René Rosíles-Martínez.  2011. Biomagnification of Mercury and Selenium in Blue Shark Prionace glauca from the Pacific Ocean off Mexico. Biol Trace Elem Res 144:550–559. DOI 10.1007/s12011-011-9040-y.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Nunca é tarde para florescer!



Ilustração: Caia Colla 

Nasci em novembro de 1940, primeira metade do século 20, filha de imigrantes portugueses que vieram para a zona rural e depois migraram para São Paulo em busca de emprego.
São Paulo estava no auge da industrialização, principalmente no que diz respeito à indústria têxtil. As famílias portuguesas eram extremamente patriarcais e, em sua maioria, de baixa renda, vivendo em casas onde abrigavam vários membros de uma mesma família. Na grande maioria dessas famílias, os filhos, quando muito, faziam curso primário e depois iam para o mercado de trabalho. Não foi diferente comigo, pois estudar, segundo o conceito geral, era só para ricos, para o meu desespero, já que sonhava com coisas grandes. Porém, minha trajetória mudou quando conheci pessoas que me ajudaram e consegui entrar no curso ginasial já com 17 anos e em seguida fui para o científico. Toda essa trajetória teve  muitos problemas por conta da grande resistência familiar. Uma formação muito rara para a época. As mulheres bem nascidas faziam escola normal e iam ser professoras primárias, as mau nascidas na maioria dos casos não terminavam o primário.
Com 19 anos comecei a trabalhar como funcionária na Faculdade de Saúde Pública da USP. Depois de fazer um estágio de mais ou menos um ano, consegui ser contratada ocupando o cargo de técnico de laboratório, colaborando com as aulas práticas de bacteriologia e auxílio à pesquisa (1960 a 1968 ).
Com 26 anos me casei. Era a rotina de todas as mulheres da época e também, é lógico, era comum se casar com maridos autoritários e repressores. Eu, como toda mulher da época, fazia o que o marido mandasse, e deixei meu trabalho para ser dona de casa por 20 anos. Tive três filhos que me ensinaram muita coisa e me deram mais força ainda para reverter essa história que não aceitava desde criança. Queria mudança.
Levei essa vida como pude, mas sempre com a ideia de algum dia dar uma girada de 360°.
Entre 1980 e 1985 morei no Estado de Goiás, passando por três cidades Niquelândia, Uruaçu e Goiânia. No início de 1986 voltei para São Paulo determinada a voltar ao mercado de trabalho, e entrei em contato com pessoas que foram meus contemporâneos na Saúde Pública. Em setembro de 1987, então com 47 anos, eu estava de volta, praticamente, ao meu primeiro emprego em um outro tempo e espaço físico diferente. Até o nome havia mudado, e a instituição agora se chamava Instituto de Ciências Biomédicas da USP (São Paulo), fazendo basicamente o que fazia em 1960, me envolvendo com a didática e pesquisa e sempre muito feliz com meu trabalho. Ufa! estava mudando minha história.
Bem, no segundo semestre de 1989 eu arrisquei e prestei vestibular no Mackenzie, em busca do meu segundo sonho: ser química ou matemática. Bem, como a química tinha mais a ver com o que eu fazia, foi nela que foquei. E consegui! Meu nome saiu na terceira lista, foi inacreditável! Comemorei com muito vinho!
Aos 49 anos, segunda metade do século 20, estava eu na sala de aula de uma universidade e levei bem, fui até o fim, trabalhando durante o dia e estudando à noite (anos dourados), me senti como se tivesse a mesma idade da galera e o interessante é que eles me tratavam assim.
Meu outro desafio, mas esse nunca foi meu sonho, foi o mestrado. Fui praticamente empurrada para ele pela Profa. Vivian  Pellizari, agora docente do Instituto Oceanográfico da USP, com quem trabalho até o momento.
Meu mestrado foi no programa de Biotecnologia Interunidades e o tema foi com saneamento básico estudando a presença de Oocistos (uma fase intermediária no ciclo de vida de protozoários) de Criptosporidim em mananciais e água tratada.
Tudo parecia já realizado quando o inesperado aconteceu: “ANTÁRTICA”!!!!!
Em 1998/99 recebi o maior prêmio da minha vida, fui para Antártica, com o projeto de pesquisa coordenado pela Profa. Rosalinda Montone (IOUSP) do qual também fazia parte a profa. Vivian Pellizari, então docente no ICB-USP. E veja bem, fui porque na última hora a pessoa indicada não pôde ir.  Permaneci na estação durante 3 meses. Fiz coleta de solo e água e processamento das amostra como parte do monitoramento da Baía do Almirantado, local onde fica a Estação Científica Brasileira Comandante Ferraz. Como se uma vez não fosse um sonho, ainda fui mais duas vezes: em 2000/2001, durante dois meses e em 2004 durante um mês.
Com 77 anos estou no IOUSP há sete e me sinto com 30 anos no meio de toda essa energia da juventude! Faço tudo que posso para ver essa gente crescer, acreditar na vida e acreditar que tem muito mais além do que podemos enxergar, pois podemos sentir também.  Concluindo, o que mais eu poderia querer?!
Obrigada às pessoas que fizeram parte da minha história de vida, que muito me enriqueceram a ponto de conseguir escrever esse texto.


Rosa com a profa. Vivian e os alunos do LECOM IO-USP.


 
Rosa com a profa. Vivian Pellizari e alunas do 
LECOM IO-USP no dia da Mulher em 2017.




Hoje em dia a Rosa, ou Rosinha como é carinhosamente chamada, está aposentada pelo ICB, depto de Microbiologia, mas trabalha no Laboratório de Ecologia Microbiana (LECOM) do IOUSP desde 2011, a convite da Profa. Vivian Pellizari, com quem trabalha há 30 anos. Além de ser responsável pela administração e logística do LECOM e realização de aulas práticas, salva e inspira a vida de todos os alunos com sua força, dedicação e amor.


Curriculum Lattes



sexta-feira, 27 de abril de 2018

Sedimentos marinhos

Por Jana M. del Favero



A maior parte do fundo oceânico é coberta por camadas de sedimentos. O sedimento é um material sólido fragmentário produzido pelo intemperismo, ou seja, alterações físicas e químicas das rochas, como o basalto ou o granito. Os sedimentos marinhos também podem ser formados pelo acúmulo de carapaças de organismos mortos. Portanto, o sedimento marinho pode ser composto de partículas minerais ou orgânicas (fósseis) e a mistura de ambos os tipos pode ser encontrada em muitos lugares no fundo do mar.

Os geólogos classificam os sedimentos marinhos com base no tamanho de suas partículas (tamanho do grão) ou no seu modo de formação. Das maiores para as menores partículas comumente encontradas nos sedimentos temos o cascalho (diâmetro maior que 2 mm), a areia (diâmetro entre 0,0625 e 2 mm), o silte e a argila (que são normalmente misturados e formam um depósito de lama com partículas de diâmetro variando entre 0,0625 e 0,0002 mm, menor que a espessura de um fio de cabelo). Podemos ignorar os colóides (partículas com diâmetro menor que 0,0002 mm), pois eles não são significativos como sedimentos. Os depósitos sedimentares mais comuns no mar são lama e areia.

Com relação ao modo de formação, os sedimentos são subdivididos em cinco categorias: 1) terrígenos - produzidos pelo intemperismo e erosão (deslocamento) das rochas em terra (ex. areias e lamas); 2) biogênicos - derivados das partes duras de organismos, como conchas e detritos esqueléticos (ex. lamas carbonáticas - compostas de carbonato de cálcio - e silicosas - compostas de sílica); 3) autigênicos - partículas precipitadas por reações químicas ou bioquímicas na água do mar próximo ao fundo (ex. nódulos de manganês e os de fosfato; 4) vulcanogênicos: partículas que são expelidas de vulcões (ex. as cinzas); 5) cosmogênicos: minúsculos grãos que se originam no espaço sideral e tendem a ser misturados aos sedimentos terrígenos e biogênicos.

Os dois principais fatores que determinam a natureza de um depósito de sedimentos são a distribuição do tamanho das partículas e a quantidade de energia no local da deposição. Em condições de grande energia, a  alta velocidade e turbulência da água mantém os grãos finos em suspensão e ressuspende as partículas finas que já estavam no fundo do oceano. Isto separa os grãos pequenos e os transporta para águas mais calmas. Por outro lado, um sedimento mais grosso é depositado sob condições de alta energia. Por isso ambientes de baixa energia, onde as correntes são fracas e a água é calma, não recebem suprimentos de grãos grossos, pois não conseguem transportá-los para esse locais. Assim sendo, nestes ambientes, normalmente, ocorre o acúmulo de lamas.

Agora vamos nadar em uma praia. Ao mergulhar sob uma onda que ainda não quebrou, notamos que a água se torna cada vez mais calma com a profundidade, certo? Podemos assim inferir que a energia no fundo induzida pelas ondas da superfície deve diminuir com a distância da costa, pois as profundidades aumentam em direção ao mar aberto. Consequentemente, há uma diminuição sistemática no tamanho do grão, ou seja,  indo a partir da praia, que é composta por areia média, grossa e cascalho, em direção ao mar aberto, o tamanho do grão diminui e apresenta-se na seguinte ordem: areia fina, areia lamacenta (areia com um pouco de lama), lama arenosa (lama com um pouco de areia) e, finalmente, lama. No entanto, é preciso lembrar que devido às glaciações e degelos no passado geológico, o nível do mar subiu e desceu. Algumas vezes, inundou a plataforma como é atualmente, e em outros momentos, expôs a plataforma, permitindo que ela ficasse coberta por prados e florestas. Isso explica por que sedimentos grossos (areia e até mesmo cascalho) são encontrados na plataforma externa onde as águas são profundas e o fundo é calmo. Esses sedimentos que se acumularam em tempos pretéritos e  sob condições deposicionais muito diferentes são chamados de sedimento relíquia.

Para coletar as amostras de sedimentos, os cientistas contam com a ajuda de diversos equipamentos. Um dos mais antigos são a draga, que raspa o fundo do oceano ao ser arrastada, e pegadores tipo Van Veen (busca-fundo), que “abocanham” uma parte do fundo com suas “mandíbulas” de metal e fecham firmemente em torno da amostra de sedimentos. Porém, ambos os aparelhos citados coletam apenas a camada superficial do sedimento. Para coletar amostras mais profundas, os pesquisadores normalmente utilizam testemunhador por gravidade (gravity corer) ou o testemunhador a pistão (piston core). O primeiro coleta amostras entre 1 e 2 metros de comprimento através de um tubo de metal oco (barrilete de testemunhagem ou core barrel) que é empurrado para dentro do sedimento pela força da gravidade. Já o segundo coleta amostras (também chamadas de testemunhos) por mais de 20 metros pois conta com a ajuda do pistão, que desliza para cima do barrilete de testemunhagem à medida que penetra no fundo e faz com que a água saia a partir do barrilete, o que permite que o testemunho dentro do tubo de revestimento seja minimamente perturbado e fique compacto (veja a figura abaixo). Hoje em dia, a melhor técnica (mas também a mais cara) para amostrar o fundo do oceano é a perfuração de plataforma, que foi desenvolvida por engenheiros de petróleo para as áreas terrestres e foi adaptada para o oceano. Com ela são obtidas amostras de sedimento com mais de um quilômetro de comprimento.



(Adaptado de Pinet, 2014)

Agora você já deve estar se perguntando: mas por que estudar e conhecer o sedimento marinho? Os sedimentos acumulados no fundo do mar e suas camadas representam um registro histórico do passado geológico. Estudos de amostras de sedimentos retiradas do fundo do mar por todo o mundo estão em andamento para documentar as variações climáticas e as flutuações do nível do mar que ocorreram há centenas de milhões de anos. Eles ajudam a entender os fatores que possivelmente induziram às mudanças climáticas no passado e ajudam os cientistas a melhorar as  condições de prever o clima futuro, antecipando os efeitos que as mudanças globais acarretarão sobre os processos ambientais e as formas de vida, inclusive sobre você!


Fonte: 
PINET, Paul R. Fundamentos de Oceanografia. LTC, 05/2017. VitalBook file.