quinta-feira, 23 de novembro de 2017

E se o mar secasse?

Por Pedro Marone Tura
Ilustração Joana Ho

As crianças fazem as melhores perguntas. Em minha última viagem à praia, uma criança ao saber que eu era oceanógrafo me fez uma das melhores perguntas que já ouvi. “O que aconteceria se o mar secasse?”. “Você quer saber o que aconteceria com os peixes e com o clima?”- perguntei. “Não, não. O que tem lá embaixo? Se não tivesse água, o que eu veria?”. Fiquei alguns segundos atônito com a simplicidade e complexidade da pergunta. O que eu poderia dizer a uma criança sobre o fundo do mar que respondesse à essa curiosidade e ao mesmo tempo não a matasse de tédio (esse sim, o principal desafio)? “Muito mais que naufrágios e corais”-comecei.


Apesar deste tópico ser inédito entre as FAQs (Frequently Asked Questions - Perguntas mais frequentes) das rodinhas de praia – geralmente relacionadas ao surf – percebi que a geomorfologia marinha é um assunto pouco apreciado pelo público geral. Você, sentado na beira da praia, já se perguntou como é o fundo do mar entre o Brasil e a África? Seria ele uniforme e tedioso? Ou então, será que eu encontro a mesma areia da praia preenchendo todo o fundo oceânico? Dois terços do nosso planeta estão submersos e, salvo quando o assunto é petróleo e pré-sal, pouco nos importamos com o que está além da linha d’água.


A geomorfologia marinha nos conta histórias incríveis sobre a própria evolução do planeta Terra. Cada praia, planície, parcel e ilha é o resultado de anos de processos sedimentares – balanço entre deposição e erosão de sedimentos - sobre um cenário forjado pelas forças tectônicas. Quantos anos? Todos eles. Mesmo que lentos, os ambientes oceânicos e costeiros estão sempre mudando. Adicione à equação a ação humana e o resultado é a paisagem atual. Mas se são tão dinâmicos, como é possível saber da história e evolução desses locais? Talvez já tenha ouvido a expressão: ‘O presente é a chave do passado’. Além de poética, essa frase representa um dos conceitos mais importantes da geologia – o uniformitarismo. Essencialmente, se hoje observo um certo resultado para um determinado processo, isso também foi verdade ao longo da história geológica. Dessa forma é possível reconstruir ambientes passados procurando por pistas do que aconteceu. Lógico ou mágico?


Mas claro, nenhuma criança quer ouvir sobre fácies sedimentares, próxies ou refletores. Alto lá! Comecei falando de um dos ambientes mais fascinantes para qualquer faixa etária: as fontes hidrotermais. “Dignas de um cenário de ficção científica!”. Em meio à escuridão do oceano profundo existem verdadeiras chaminés, que constantemente jogam no oceano uma variedade de elementos químicos. As fontes se concentram no limite entre placas tectônicas, em regiões com nenhuma luz. Ou seja, o principal processo de transformação da matéria inorgânica em orgânica - a fotossíntese - não ocorre nessas regiões. Ao invés da luz, os organismos aproveitam a energia das reações químicas dos elementos, um processo conhecido como quimiossíntese. O que no início se pensou que fosse uma região sem vida, mostrou-se uma das mais incríveis do ponto de vista biogeoquímico.

Fonte hidrotermal e sua fumarola negra. Elementos químicos são constatemente dispejados no oceano por essas chaminés (Fonte: https://www.sciencenews.org/article/deep-sea-hydrothermal-vents-more-abundant-thought).

“Agora olhe para trás. O que você acha da Serra do Mar?”. A Serra do Mar é uma cadeia de montanhas que impressiona por seu tamanho e extensão. Mas, com todo respeito, nem se compara às estruturas que encontramos escondidas no oceano. Imagine caminhar por uma planície e se deparar com montanhas que erguem-se por quilômetros de altura, sem aflorar na superfície. Navegantes desinformados nem imaginam a incrível formação que está sob seus pés. Essas estruturas não são raras e existem por todo oceano. Aliás, uma cadeia de montanhas corta todo oceano Atlântico, no encontro entre as placas tectônicas sul-americana e africana, a chamada Cordilheira Meso-Atlântica. Caprichosamente, a cadeia emerge próximo ao círculo polar ártico, na Islândia. Que tal nas próximas férias visitar uma cadeia de montanhas submarinas?

Esquerda: Mergulho na cordilheira Meso-Atlântica na Silfra fissure, Islândia (Fonte: https://www.flickr.com/photos/nrgie/3673050717). Direita: Caminho entre a cordilheira no Thingvellir National Park, Islândia (Fonte: https://www.flickr.com/photos/ableman/5989835706).

Em formato de cones irregulares, os montes submarinos existem em todas as bacias oceânicas. O ‘diâmetro’ dessas estruturas varia, mas geralmente não ultrapassa poucos quilômetros. Mas é claro, existem excessões. Imagine uma estrutura erguendo-se três quilômetros sobre o fundo oceânico e com uma área maior que o estado de Santa Catarina. Essa estrutura é a Elevação Rio Grande. Não bastasse seu tamanho, um cânion de aproximadamente 800 m de altura e mais de 25 km de espessura corta todo esse ‘edifício geológico’. Um Grand Canyon próprio. Impressionante? Sem dúvida. Devido à esses números, a Elevação Rio Grande foi carinhosamente chamada de a ‘Atlântida brasileira’ pela mídia e canais de divulgação.


E assim a conversa tomou bons minutos da nossa tarde e agregou outros curiosos. Exemplos não faltam. Novas técnicas de medição e exploração do fundo tem mostrado que ainda conhecemos pouco dos nossos oceanos. Na realidade, conhecemos mais sobre a superfície da Lua e de planetas como Marte do que do fundo oceânico. Se algum dia você já se sentiu chateado por ter nascido em uma época em que viagens espaciais ainda são prematuras, e navegações em naus e caravelas ultrapassadas, anime-se. Você nasceu na época certa para explorar os oceanos.

Para saber mais:


Sobre Pedro Marone Tura:
"Sou oceanógrafo e atualmente aluno de doutorado em oceanografia biológica pelo Instituto Oceanográfico - USP. Trabalho com o fluxo vertical de partículas na água e com o ciclo biogeoquímico dos elementos no ambiente marinho. Sempre apaixonado por oceanografia e sua interdisciplinaridade, hoje descobri uma nova paixão: a educação. Vejo nela a oportunidade de aproximar a sociedade do mundo acadêmico."

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Minicurso Baleias e Golfinhos

Seu sonho é trabalhar com mamíferos marinhos? Este minicurso pode ser uma ótima oportunidade para saber mais sobre esses seres incríveis. Em dezembro, no Instituto Oceanográfico da USP.

Mais informações: https://www.iojunior.com/cursos

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Pesca Artesanal

Por Gabrielle Souza


No descomplicando netuno de hoje vamos falar sobre pesca artesanal. Você sabe do que se trata? Confira mais informações neste post ;)

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   Nós costumamos achar que o termo pesca artesanal está sempre ligado a comunidades tradicionais e a subsistência. Mas grande parte de sua produção vai muito além da subsistência.

   O termo pesca pode ser subdividido de acordo com a nossa legislação. Segundo a cartilha sobre pesca artesanal legal, publicada pelo Ministério Público Federal, esta pode ser dividida em: 1) Pesca artesanal que é praticada de forma individual e autônoma ou por economia familiar, geralmente utilizando meios de produção próprios; 2) Pesca não comercial amadora que é realizada com equipamentos ou petrechos previstos em legislação específica, tendo por finalidade o lazer ou esporte; 3) Pesca não comercial de subsistência que tem como finalidade o consumo doméstico e 4) Pesca comercial industrial que é praticada por pessoa física ou jurídica, envolvendo pescadores profissionais e vínculo empregatício. Em qualquer um dos tipos acima, é possível vermos a Pesca ilegal ou a Pesca predatória. Basta que a operação retire do ambiente uma quantidade de peixes superior à capacidade de reposição ou que utilize equipamentos inadequadas, estas ações podem até constituir crime.

   Mas vamos logo ao que interessa? O assunto de hoje é pesca artesanal.

   A gente já falou que pesca artesanal é praticada por pescadores profissionais de forma autônoma, ou por envolvimento familiar. Nesta atividade, se utilizam embarcações de pequeno porte e, portanto, apenas distâncias pequenas são alcançadas, próximo a costa (art. 8º, inciso I, “a”, da Lei Federal nº 11.959/2009 e art. 2º, inciso IV, da Instrução Normativa Interministerial 10/2011). Além disso, os trabalhos ligados a confecção de petrechos de pesca, reparos nas embarcações e processamento do pescado também são de descritos na Lei Federal nº 11.959.

   Para o reconhecimento dessa atividade, é necessária a obtenção de documentos apropriados, que visam a segurança do pescador nesta atividade e a proteção do meio ambiente. A documentação é extensa e vai desde permissão prévia de pesca, passando por inscrição da embarcação (registrada na Autoridade Marítima e no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP)) até a regularização da habilitação do pescador, entre outros.

   Alguns dos petrechos utilizados na pesca artesanal são a linha, redes de espera ou emalhe, redes de arrasto, cerco, armadilha e puçá (coleta manual com aparelho de mergulho), entre outros. Dentro de cada uma dessas modalidades, a legislação ainda caracteriza alguns subtipos, bem como determina as atividades proibidas. A pesca de rede é uma das mais utilizada na pesca artesanal. 

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Figura 1. A- Pesca por rede; B- Pesca por armadilha; C- Pesca por linha; D- Pesca por arrasto. Fonte: Imagem A; Imagem B; Imagem C; Imagem D.


   Em 2013 o Ministério da Pesca e Aquicultura apontou que dentre as 1,4 milhões de toneladas da produção de peixes de 2011, 803 mil toneladas se originaram da pesca, sendo a pesca artesanal responsável por mais de 50% da produção interna Ao contrário do que imaginamos, é ela a grande responsável pelo maior volume do pescado consumido em nosso país.

   Apesar de não associarmos a pesca artesanal a impactos negativos no ambiente marinho, não quer dizer que eles não existam. A atividade pesqueira realizada artesanalmente pode contribuir para o cenário de degradação dos ecossistemas costeiros, caso não siga as normas estabelecidas pela legislação.



Referências


Pesca artesanal legal : pescador da região Sul/Sudeste : conheça seus direitos e deveres / 6ª Câmara de Coordenação e Revisão, Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais. – Brasília : MPF, 2017.

Pesca artesanal brasileira. Aspectos conceituais, históricos, institucionais e prospectivos/ Adriano Prysthon da Silva – Palmas : Embrapa Pesca e Aquicultura, 2014.

JURÍDICOS, Presidência da República Casa Civil- Subchefia Para Assuntos. LEI Nº 11.959, DE 29 DE JUNHO DE 2009.. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l11959.htm>. Acesso em: 23 out. 2017.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sobre mudar a rota de navegação

Por Raquel Saraiva

Ilustração: Joana Ho

Mudar de carreira não é fácil - bom, pelo menos assim eu pensava quando resolvi abandonar minha carreira na fisiologia animal para encarar uma nova graduação em jornalismo. Grandes mudanças são sempre muito difíceis de encarar. E se elas não nos são impostas pelas circunstâncias da vida, mas partem de uma insatisfação nossa, acho que são ainda mais complicadas.

Quem nunca pensou em como seria se tivesse escolhido outra carreira? Passei muitos anos refletindo sobre isso - eventualmente e sem compromisso. Tomar a decisão de mudar foi, para mim, a parte mais difícil da mudança. Encarar o medo de voltar para os estudos de pré-vestibular, de falhar no Enem e medo de estar tomando a decisão errada custou muitas noites insone, muito choro e ansiedade.

Decidi pela biologia aos 17 anos. Gostava de embriologia e fisiologia, fantasiava uma carreira na ciência ou no jornalismo científico. Decidi, assim, optar pela área de saúde. Ingressei no curso e descobri aos poucos como era na realidade aquela vida que eu tinha idealizado.

Eu poderia listar os problemas da academia e da vida de professor e assim justificar minha mudança. Mas seria injusto. Todos sabemos que qualquer profissão tem seus louros e agruras. Se você gosta do que faz, os louros pesam mais na balança. Eu via muitos profissionais, alguns passando por mais dificuldades que eu, super felizes nos seus laboratórios e no campo - e não entendia como aquilo era possível.

Tentei ‘resolver’ minha insatisfação várias vezes. Foram anos de conversas com amigos, com meus pais, procurei ajuda na psicologia e na religião. No mestrado, escolhi trabalhar na área que sempre gostei e com uma orientadora que, além de super competente, era educada, prestativa e gentil. E sou muito feliz pelo trabalho que desenvolvemos juntas. Também fui muito, muito feliz no ano que fui monitora e, anos depois, professora substituta de Fisiologia Animal na UFBA.

O Facebook me lembrou essa semana uma publicação que fiz nesse período, quando lecionava. “Minha profissão é a melhor do mundo”, eu escrevi. Foi bom para lembrar dos momentos que curti minha profissão de bióloga. E eu estive feliz em muitos momentos, principalmente na sala de aula. Mas no restante do tempo eu estava insegura e detestava minha rotina.

Lembro de um pensamento que era recorrente "vou ser feliz quando eu estiver no mestrado" ou "vou ser feliz quando eu publicar meu artigo do mestrado"... bom, a “felicidade plena” que eu tanto esperei nunca veio - na verdade, ela se limitava a pequenas alegrias com as vitórias que eu tinha. Hoje, mesmo quando estou chateada com algo no curso ou em relação à profissão, eu estou feliz e tenho consciência disso em todos os momentos.  Achei que o recomeço seria difícil - e está sendo. Mas é muito mais gostoso que difícil.

Levei muito tempo para me convencer que eu não estava satisfeita e que jamais seria naquela carreira - insight óbvio que só veio com a maturidade. Eu aprendi que a gente tem que ser feliz agora - fazemos planos futuros para a vida pessoal, para a carreira, mas a felicidade deve ser vivida diariamente. Uma frase que não sai da minha cabeça é um verso da música Beautiful Boy, de John Lennon: “Life is what happens to you while you’re busy making other plans” (A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos).

Eu ouvi meu coração. Mas não só isso. Tenho muitos amigos próximos que são jornalistas, então conhecia relativamente bem a rotina da profissão. Também procurei ajuda com uma psicóloga que, por sinal, tinha se graduado e feito mestrado em veterinária antes de estudar psicologia, e ela também foi muito importante para me ajudar a enfrentar a mudança.

Assumir que jornalismo era mesmo o amor da minha vida foi fácil. Mesmo a área sendo complicada (vide as dezenas de passaralhos [demissões em massa] nas redações nos últimos meses). Sabendo que seria complicado lidar com as opiniões de pessoas próximas ("por que não faz medicina?", "acho que relações internacionais é melhor", “tem que ser forte para aguentar a carreira acadêmica”), compartilhei a novidade apenas depois da minha aprovação na UFBA.

Sei que sou privilegiada por ter tido a possibilidade de mudar - por uma série de fatores, muitos não podem fazer isso. Um fator importante foi me sentir amparada e acolhida. Eu contei com apoio da minha família, de meu marido e de poucos amigos mais íntimos. Pessoas que não questionaram minha escolha ao ver meus olhos brilharem e não mediram esforços para me ajudar. Isso foi fundamental para me dar forças para prosseguir na busca do meu sonho.

Não me arrependo de ter feito a mudança beirando os 30. Começar um outro curso com mais maturidade é maravilhoso, sinto que estou aproveitando muito mais a nova graduação, com menos medo e fazendo escolhas mais conscientes. A graduação em biologia e o mestrado com toxinologia me ajudaram a escrever de forma mais objetiva e clara, além de terem me dado uma boa bagagem para discutir temas ligados à saúde - como tenho feito aqui no blog com a divulgação científica. Por isso, sinto que estou fazendo o curso de jornalismo na hora certa. E quem sabe não enveredo pelo jornalismo científico um dia?

Hoje eu faço planos e penso nas mil (maravilhosas) possibilidades que a carreira me oferece, não me esquivo de falar sobre o jornalismo em qualquer lugar que esteja, não reclamo de ter que fazer coisas do trabalho ou da faculdade tarde da noite ou de madrugada nos finais de semana… pela primeira vez eu estou amando fazer o que faço. O jornalismo é parte da minha vida e não apenas uma profissão. E eu amo viver isso.

É bom realizar sonhos e também ter consciência de estar realizando-os. Desfrutar de cada momento, por mais irrelevante que pareça - para os outros. Porque eu sei o quanto sonhei em estar aqui, e não quero deixar nada passar em vão.

17992044_10207149000438333_4088882636839387644_n.jpgSobre Raquel:

Estudante de jornalismo, bióloga (2010) e mestre em Zoologia (2014). Trabalhou com neurociências, fisiologia animal e toxinologia. Hoje realiza o sonho de estudar jornalismo, é apaixonada por todas as áreas da comunicação, está no quarto semestre do curso na UFBA e feliz da vida se dedicando ao estágio na redação de um jornal. É editora do blog Bate-Papo com Netuno desde 2016.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os furacões e seus nomes

Por Carolina Barnez Gramcianinov


Ilustração: Silvia Gonsales

A temporada de ciclones tropicais no Atlântico começou dia 19 de abril e já temos um furacão para entrar na história. Irma foi devastador e provavelmente não teremos mais furacões com esse nome no Atlântico. Você sabe por quê? Já se perguntou de onde vem os nomes dados aos furacões e por que isso é feito?

Nomear os ciclones tropicais (ou furacões) com nomes próprios, simples e curtos facilita a comunicação e os alertas à população. Antigamente, códigos envolvendo a latitude e longitude eram usados, mas isso causava certa confusão pela quantidade de letras e números. Durante a temporada de furacões é comum ter mais de um sistema atuando no Atlântico ao mesmo tempo e é importante que o alerta seja entendido claramente para cada um deles.  A confusão entre furacões que ocorrem ao mesmo tempo e atuam em regiões diferentes ou em sequência era muito comum quando a notícia era passada, principalmente via rádio, o que atrasava e comprometia os alertas e planos de evacuação.


Animação com imagens de satélite do dia 14 de Setembro de 2017 do Oeste do Pacífico Norte, com os ciclones tropicais Talim (mais ao norte) e Doksuri (mais ao sul). Esta imagem em infravermelho colorido mostra as características das nuvens, e consequentemente, chuva, associada aos sistemas atmosféricos. Quanto mais fria é a nuvem, mais alta ela está e maior é o potencial de chuva forte. Na escala de cores adotada, nuvens mais altas são representadas pela cor vermelha. (fonte: http://www.ssd.noaa.gov/PS/TROP/Basin_WestPac.html, acessado em 14/09/2017).

A tradição de nomear furacões tem sua origem no Oceano Índico Oeste, onde as comunidades atingidas os nomeavam de acordo com o santo do dia. No início do século XIX, um meteorologista australiano passou a dar nomes femininos aos ciclones e essa prática foi adotada ao redor do mundo, especialmente por meteorologistas da Marinha e Exército durante a 2a Guerra Mundial. Apenas em 1978 nomes masculinos passaram a ser usados no leste do Pacífico Norte e, um ano depois, no Atlântico e Golfo do México.


Atualmente, os nomes são escolhidos a partir de listas organizadas pela Organização Mundial de Meteorologia (WMO, em inglês1). Existe uma série de listas para cada região oceânica afetada por ciclones tropicais, totalizando 10 grandes listas. Todas obedecem ordem alfabética, o que permite saber qual é o número do ciclone da estação. Em qualquer região, um ciclone tropical que começa com A é o primeiro da estação. Regiões com muita atividade de ciclones têm listas mais extensas. A lista do Atlântico e Golfo do México, por exemplo, possui 21 nomes por estação, a do Pacífico Norte Central possui apenas 12. Mas e, se durante a estação, houver mais furacões do que nomes? Cada região tem uma saída para isso. No Atlântico inicia-se o alfabeto grego, Alfa, Beta e assim por diante. Em outras regiões passa-se para a lista do ano seguinte, e em algumas existe até uma lista de nomes reservas!


Imagens do satélite GOES do Furacão Wilma (2005) atingindo a Florida (EUA). Este foi o ciclone tropical mais intenso registrado na bacia do Atlântico, atingindo ventos de 295 km/h. (fonte: NOAA - http://www.ssd.noaa.gov/PS/TROP/trop-atl.html)

Cada grande região já tem uma lista que contempla nomes para mais de um ano. Quando se chega ao último nome da última lista disponível, volta-se à primeira. Por exemplo, no Atlântico temos 6 listas, isso significa que a cada 7 anos, as repetimos. Portanto, em 2023 estaremos usando a mesma lista deste ano! Por isso, às vezes, ouvimos nomes repetidos, ou, quando vamos pesquisar sobre um furacão aparece mais de um com o mesmo nome. Mas então há a pergunta: por que nomes de ciclones "famosos" como Katrina e Sandy não aparecem mais na lista? A resposta é que, por consideração às vítimas, ciclones que causaram muitos danos e mortes têm seus nomes retirados das listas. Nesse caso a WMO elege um nome com a mesma inicial para a substituição. Esse é o caso dos ciclones tropicais Haiyan (Filipinas, 2013), Sandy (EUA, 2012), Katrina (EUA, 2005) e Mitch (Honduras, 1998), por exemplo. Para mais nomes aposentados de furacões, clique aqui.

O furacão Irma (2017) já está entre os mais intensos da história e foi o ciclone mais intenso a atingir os EUA desde o Katrina (2005). Outra característica marcante foi a quantidade de dias que ele ficou em sua intensidade máxima: foram cerca de 2 dias com ventos que atingiram quase 300 km/h (2).  Os danos foram enormes e já se discute sua retirada da lista de nomes (3). Ele é o décimo nome com “I” a ser retirado da lista do Atlântico, sendo esta inicial a com maior quantidade de nomes retirados: Ione (1955), Inez (1966), Iris (2001), Isidore (2002), Isabel (2003), Ivan (2004), Ike (2008), Igor (2010), Irene (2011),  Ingrid (2013).


Exemplo do monitoramento realizado pelo Centro Nacional de Furacões dos EUA (NHC, em inglês). Na imagem podemos ver o furacão José e duas perturbações com pequeno potencial de desenvolvimento de ciclones marcados com "X" amarelo (chances menos que 40%). (fonte: http://www.nhc.noaa.gov/, acessado em 14/09/2017).


Se quiser saber qual será o nome do próximo ciclone tropical, confira as listas no site da Organização Mundial de Meteorologia1.
Quer saber qual será o nome do próximo furacão? Veja na página do National Huricane Center: http://www.nhc.noaa.gov/

Referências

(1) https://public.wmo.int/en/About-us/FAQs/faqs-tropical-cyclones/tropical-cyclone-naming
(2) http://fingfx.thomsonreuters.com/gfx/rngs/STORM-IRMA/010050RH1R0/index.html
(3) https://www.usatoday.com/story/weather/2017/09/07/irma-likely-join-long-list-retired-hurricane-names-start-i/641999001/ 

Sou oceanógrafa pelo IO-USP, onde também fiz mestrado em Oceanografia Física. Sempre me interessei pelo impacto dos oceanos no tempo e no clima, o que me motivou a entrar no doutorado em Meteorologia no IAG-USP. Desde que entrei na graduação, me apaixonei pela física dos oceanos e seus impactos em outros processos. Agora no doutorado, foi impossível não me encantar com a dinâmica e termodinâmica da atmosfera. Busco estar entre esses dois meios e acredito que ainda falta um entendimento integrado entre estas áreas para uma melhor compreensão do sistema climático.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Minicurso sobre isótopos

Que tal viajar no incrível mundo dos isótopos? Então se inscreva nesse curso que ocorrerá de 23 a 26 de outubro no Instituto Oceanográfico, da Universidade de São Paulo

Mais informações: https://www.iojunior.com/cursos





sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Furacão, tornado, tufão e ciclones

Por Gabrielle Souza


  Hoje no descomplicando netuno falaremos sobre fenômenos assustadores, que tem recentemente causado sérios danos nos Estados Unidos. Falaremos de furacões, tornados, ciclones e tufões. Esses fenômenos climáticos naturais são todos originários dos deslocamento de massas de ar, o que chamamos popularmente de vento, e são ocasionados por mudanças fortes na pressão atmosférica. A única coisa que diferencia um furacão de um tufão e de um ciclone é o local onde ocorrem (veja a imagem abaixo).



    Antes de começarmos a diferenciar estes fenômenos, é importante saber que ciclone tropical é um termo genérico usado pelos meteorologistas para descrever um sistema organizado de rotação das nuvens e trovoadas originado sobre águas tropicais e subtropicais. Quando o ciclone tropical atinge mais de aproximadamente 119 km/h, ele é então classificado em furacão, tufão ou ciclone, dependendo da localização, conforme já mostrado acima.

     Existem fatores que podem influenciar e contribuir para a ocorrência destes fenômenos, como: a presença de massas de água quentes nos oceanos, o rápido resfriamento da atmosfera e uma camada próxima a troposfera (camada atmosférica mais próxima da superfície terrestre) relativamente úmida, por exemplo.

    O furacão, mais popular nas mídias recentemente, é caracterizado por fortes ventos com velocidades que podem atingir até 300 km/h, girando em sentido horário (hemisfério sul) e anti-horário (hemisfério norte). Possuem entre 400 a 650 km de diâmetro e ocorrem geralmente no Oceano Atlântico. Os furacões são formados, quando o ar quente e úmido (seta vermelha da figura abaixo) sobe e se condensa formando chuvas fortes, criando uma zona de baixa pressão próximo a superfície da água. O ar quente estando sob uma pressão relativamente maior que o ar frio (seta azul), movimenta-se em direção ao "espaço" ocupado pelo ar mais frio, de menor pressão, que suga o ar do ambiente quente, e também sobe. Esse fluxo promove a criação de nuvens e chuva (veja a imagem abaixo). O ar que contorna a zona de baixa pressão cria uma espiral de velocidades muito altas que podem acabar atingindo a superfície terrestre e oceânica. 




        No centro do furacão está a parte denominada de “olho da tempestade” ou “olho do furacão”, onde o céu é praticamente limpo, os ventos são baixos e não existe precipitação.

    O tornado, outro termo que comumente escutamos, é caracterizado pelos meteorologistas como o fenômeno de menor duração. Ocorre geralmente nas zonas temperadas do Hemisfério norte, sendo os mais intensos observados no centro-oeste dos Estados Unidos e Austrália. Quando tocam o solo produzem grandes redemoinhos de poeira que possuem até 10 km de diâmetro, atingindo cerca de 500 km/h, durando entre 10 e 30 minutos. Quando acontecem no mar, o interior da coluna “vazia” é preenchida com a água sugada, formando-se a tromba d’água.

     De acordo com alguns cientistas o aumento recente da ocorrência e intensidade dos furacões está relacionado com o aquecimento dos oceanos. Isso ocorre porque, segundo o professor Gabriel Vecchi de geociências da Universidade de Princeton, “Um oceano mais quente faz uma atmosfera mais quente, uma atmosfera mais quente pode conter mais umidade”, ou seja, os furacões irão armazenar mais água. Por conta dessa elevação na temperatura, para cada aumento de 1 grau Celsius, aumenta também 7% de água no ar, justificando o aumento da quantidade de água quando essas tempestades atingem o solo.

Para você fixar o assunto desse post nós elaboramos um Quiz.  Só clicar no link abaixo! Esperamos que goste ;) 



Referências

NOAA. What is the difference between a hurricane, a cyclone, and a typhoon?: The only difference between a hurricane, a cyclone, and a typhoon is the location where the storm occurs.. 2017. National Oceanic and atmospheric administration U.S department of commerce- NOAA. Disponível em: <https://oceanservice.noaa.gov/facts/cyclone.html>. Acesso em: 20 set. 2017.

INPE. Qual a diferença entre tornado, tufão e furacão? 2013. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais- INPE. Disponível em: <http://www.inpe.br/noticias/namidia/img/clip26092013_11.pdf>. Acesso em: 20 set. 2017.

FIOCRUZ. Os ventos. Fundação Oswaldo Cruz- Fiocruz. Disponível em: <http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/ventos.htm>. Acesso em: 20 set. 2017.

PAULO, Prefeitura de Santo André- São. Tornados, Furacões e Tufões. 2008. Disponível em: <http://www.santoandre.sp.gov.br/biblioteca/bv/hemdig_txt/080507001.pdf>. Acesso em: 20 set. 2017.

THAN, Ker. Typhoon, Hurricane, Cyclone: What's the Difference?: Hurricanes, cyclones, and typhoons are all the same weather phenomenon.. 2013. National Geographic. Disponível em: <http://news.nationalgeographic.com/news/2013/09/130923-typhoon-hurricane-cyclone-primer-natural-disaster/>. Acesso em: 20 set. 2017.

BBC, British Broadcasting Corporation-. How hurricanes form. 2014. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/schools/gcsebitesize/geography/weather_climate/weather_human_activity_rev2.shtml>. Acesso em: 20 set. 2017.

WORLAND, Justin. The One Number That Shows Why Climate Change Is Making Hurricane Season Worse. 2017. Disponível em: <http://time.com/4931586/irma-hurricane-season-climate-change/>. Acesso em: 27 set. 2017.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O ar que você respira

Por Cláudia Namiki

No dia 03 de setembro, recebi uma linda mensagem me parabenizando pelo Dia do Biólogo, que dizia assim: “Biologia: muito obrigado por você NÃO fazer parte da minha vida”. Depois de perceber o NÃO, achei essa frase um verdadeiro paradoxo, já que bio significa vida, e o ser humano que escreveu essa mensagem devia estar “vivinho da silva”, utilizando o oxigênio produzido por outros seres vivos através da fotossíntese, para a manutenção de suas células enquanto pensava que não tinha nada de biologia em sua vida...



Ilustração: Joana Ho.

E se eu contasse que boa parte do oxigênio consumido por esse indivíduo foi produzido por microalgas e cianobactérias, organismos tão pequenos que a gente não consegue ver? Esses microrganismos formam o grupo que chamamos de fitoplâncton, que além de sustentar toda a teia trófica marinha, são responsáveis pela produção de aproximadamente 40% do oxigênio produzido anualmente no planeta (Falkowski, 1994). Assim, embora você não veja as microalgas e cianobactérias quando está em frente ao mar, saiba que elas podem afetar profundamente os ciclos de oxigênio e carbono na Terra tanto quanto as vistosas plantas terrestres.(veja aqui Por que alga não é planta, por que planta não é alga


Mas a importância dessas pequenas criaturas não para por aí:  a vida no planeta como ela é hoje não existiria sem as cianobactérias. Os geólogos descobriram que durante a primeira metade dos 4,6 bilhões de anos de existência da Terra quase não existia oxigênio livre em sua atmosfera. O oxigênio começou a se acumular na atmosfera terrestre a apenas 2,4 bilhões de anos, graças à fotossíntese realizada pelas antepassadas das cianobactérias atuais. As plantas terrestres só apareceram 2 bilhões de anos após os níveis de oxigênio na atmosfera começarem a subir (Falkowski, 2012).


Ou seja, todos os Homo sapiens sapiens, incluindo você, é claro, e todas as outras formas de vida dependentes de oxigênio devem, em grande parte, sua existência ao surgimento de uma única célula capaz de obter a energia do Sol para transformar a matéria inorgânica (carbono, água e outros nutrientes) em alimento.


Deste modo, não pense que Biologia não faz parte da tua vida só porque não foi o curso que você resolveu estudar! Ela está em tudo, inclusive no ar que você respira!


Para saber muito mais, assista ao vídeo na página

http://www.sciencemag.org/news/2017/03/meet-obscure-microbe-influences-climate-ocean-ecosystems-and-perhaps-even-evolution

Sugiro também que ouça a música do Spyro Gyro de Jorge Ben, para saber como as microalgas podem influenciar até a música popular brasileira. ;)





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A fertilização dos oceanos e as mudanças climáticas 



Referências:


Paul G. Falkowski. The role of phytoplankton photosynthesis in global biogeochemical 
Cycles. Photosynthesis Research 39: 235-258. 1994.


Paul G. Falkowski. The power of plankton. Nature, 483: 17:20. 2012.